quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Natal do consultório


O que mais impressionava era o cheiro, misto de cera, tabaco e metal. Um perfume irreproduzível a consultório, a cura e desinfectante, misturado com o de casa vivida. Estava presente na entrada, cozinha, na sala de estar e, claro, na sala de atender. Nesta, a capela mor do meu pai, destacavam-se as pesadas cortinas de veludo ocre, sempre corridas por cima dos estores semi-fechados.
Ao entrar era difícil habituarmo-nos à penumbra, exigida pela especialidade de oftalmologia e pontualmente interrompida pelo candeeiro da secretária, uma outra luz num móvel ao canto e um aplique de parede que bravamente iluminava 3 desenhos a carvão com paisagens do Funchal. O chão em madeira castanha escura brilhava e reflectia a escassa luz graças à cera aplicada regularmente. O tom beige das paredes compunha o ambiente de respeito.


Ao fundo da sala a secretária em madeira e metal, que a nós nos parecia enorme, não se separava de outra figura de destaque: o impressionante cadeirão de braços que rodava, oscilava e deslizava sem esforço maior. Igual sorte não tinha o par de cadeirões em napa (igualmente ocres) colocados à frente da anterior, diligente e permanentemente aparafusados ao chão. A proeza foi feita pelo fiel Sr Horácio para assim impedir que fossem arrastados e se aproximassem de território sagrado: o tampo da secretária. Os poucos e arrumados objectos que ali estavam não podiam ser molestados por nenhuma mala de senhora, carrinho de criança ou saco de compras. Em cima da secretária só podiam estar os indispensáveis pisa papéis, relógio, porta canetas, todos estrategicamente colocados em posição de ataque contra qualquer desavisado que ousasse ali colocar fosse o que fosse. Lembro-me dos avisos secos de “sacos e malas no chão, que isto não é o balcão da mercearia…”. Ou dos risos contidos e camuflados do meu pai quando chegava algum doente novo e tentava a custo aproximar do Senhor Doutor a cadeira onde estava….


O tempo encarregou-se de juntar peças, móveis, quadros e objectos escolhidos a dedo por quem ali passava a maior parte do dia fechado. Uma das últimas aquisições foi uma estante em madeira com portas em vidro que rapidamente se encheu de livros sobre glaucomas e outras maleitas dos olhos. Como ainda assim sobrava espaço, acolheu-se também aqui a já extensa colecção de “bonequinhos médicos”: Dezenas de figuras nos mais diversos materiais, comprados, oferecidos ou simplesmente acolhidos naquele mini hospital feito em vidro.
Ir ao consultório era para nós um momento raro de excitação.


Lutávamos para ver quem ficava com as canetas e brochuras de propaganda médica, quem primeiro saltava para o cadeirão giratório ou quem descobria as surpresas guardadas nos armários. Isto porque a sala dos aparelhos tinha uma parede coberta de armários em madeira que escondia tudo aquilo que os doentes traziam de presente. No Natal, época própria para os reconhecimentos às habituais borlas anuais, os armários enchiam-se com todo o tipo de coisas, desde garrafas de whisky a bandejas de prata, passando pelos bordados, os bolos de mel e vinho madeira. Era uma autêntica caverna de Ali Baba onde o meu pai depositava os agradecimentos vindos das mais diversas pessoas.


Nesta visita anual aos armários do consultório, normalmente dois dias antes do Natal e sempre à noite, saíamos carregados. De coisas, mas sobretudo de emoção e orgulho. Ainda que não fossem precisas, ali estavam as provas de que o nosso pai era o melhor médico da ilha, o mais reconhecido.
Enchíamos o carro com os tesouros embrulhados em papel colorido e festejávamos dois dias antes como se o Natal fosse a dobrar. A surpresa era total já que o meu pai nunca abria aquelas prendas. Chegavam intactas a casa, de diversos tamanhos e envoltas na aura de mistério própria da época. No momento da abertura participava toda a família, sem excepção, recebendo explicações sobre quem tinha dado o que e porque. Por vezes um simples “naperon” bordado em casa era mais valorizado que uma garrafa de cristal comprada na “Maison Blanche”. Este era o verdadeiro espírito de uma noite mágica, antecipando um ainda maior Natal. O melhor Natal do Mundo.


Hoje não há ida ao consultório. Não há prendas a sobrar nem ataques às gavetas e armários. O Natal é diferente… mas é Natal. Os espaços são outros, as pessoas (algumas) são outras mas a história é a mesma. E para que ela não mude o importante é, tal como fazia o meu Pai naquelas vésperas, ir criando magia. Assim o Natal será, sempre, o mesmo Natal de sempre.
Para mim isto chega. É o princípio absoluto e imutável que faz com que este Natal seja outra vez o melhor Natal do Mundo!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Romi & Emi


Esta mensagem estava numa parede de Montevideo. A destinatária (Romina? Romana? Rominante?) parece ter mais que fazer que dar atenção ao nosso herói Emi (certamente Emilio) e este socorreu-se do passeio público para anunciar a sua revolta. É um misto de grito de desespero, chamada de atenção e ultimato final, feita, certamente, já em desespero de causa.
A Romi, que deve ser muito hermosa, não liga nenhuma ao nosso D. Quixote uruguaio. Este, em vez de lutar contra moinhos de vento, pegou numa lata de spray e reclamou, aos quatro ventos, um pouco de atenção. O principio é o mesmo, os meios é que são diferentes.
Se pudesse, convencia a Romi a dar nem que fosse um pouco de bola ao desgraçado do Emilio...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Estrela Francisca









Foste a terceira a nascer. Num 28 de Novembro, pouco depois da meia noite, resolveste que já era hora de quebrar o suspense e fazer a tua primeira aparição.
Confesso que não me lembro onde estava eu nessa noite. Presumo que no Funchal, pronto para vir a Lisboa conhecer este novo elemento, mas isso pouca importância tem agora. O que sim importa é que estes 9 anos foram cheios de aniversários, almoços, jantares, baptizados, férias no Algarve, natais em família e festa. Muita festa.

Entre tanta animação sempre foram dizendo que éramos parecidos. “tal tio, tal sobrinha” é ainda frase corrente, pelos mais variados motivos: um dia são os olhos, no outro o cabelo (isto de ter caracóis em família de cabelo escorrido coloca-nos sempre no mesmo saco) e às vezes a teimosia (acho uma injustiça fazer esta comparação considerando que o meu caso era bem mais grave: batia com a cabeça no chão até conseguir o que queria… ou acabava com vultos na testa dignos de um personagem do Frankenstein!). Claro que tudo isso até pode ser verdade mas, da minha parte, continuo a achar que o segredo está no palco e na festa. Ou alguém vai negar que tu e eu somos imbatíveis neste campo?

Mais: considerando que eu já te levo uma vantagem de vulto (30 anos… exactos), diria que o teu futuro neste sector é bem mais brilhante. Tanto que hoje, nove anos passados e olhando um pouco para trás, tenho a certeza que tu não nasceste… estreaste! E quem se estreia desta forma não pode nunca sair de cena já que os papéis principais são para pessoas como tu.
Só por isso já acho que vivo cheio de sorte: vou estar aqui para acompanhar, ver e aplaudir. Ou não é esse o papel dos admiradores?
Parabéns Kika!!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O muro





Passaram 20 anos desde que o muro de Berlim caiu. Caiu não, foi derrubado, que cair parece coisa do acaso e não obra de muitos. Revi na televisão as imagens de então, as pessoas em cima do muro, a invasão das fronteiras e todos aqueles festejos que a mim, com 19 anos e perdido numa ilha no meio do Oceano, me pareciam tão longe e irreais.


A felicidade alheia era tão forte que obviamente também eu fiquei feliz. Desde essa altura ficou a curiosidade em ver como seria Berlim, a separada e a agora junta. Isso só aconteceu em 1995, 6 anos depois. Cheguei à cidade unificada para uma semana de férias (ou de visita de estudo, se preferirem) por conta do meu estágio na Comissão, em Bruxelas. Lembro-me como se fosse hoje a sensação de entrar na capital alemã, de autocarro e depois de uma longa viagem com outros 100 colegas de estágio, desembarcar precisamente na Porta de Brandenburgo e ter uma visão de autêntico estaleiro de obras com o maior número de guindastes imaginável. Berlim estava em obras e isso sentia-se por todo o lado. Seis anos depois da queda do muro os alemães construíam como uns loucos, prontos a recuperar o tempo perdido com uma divisão que lhes tinha sido imposta.


A cidade do muro, monumental e organizada, histórica e moderna (tinham acabado de construir a Praça Sony), rica e pobre, mostrava-se como a capital dos contrastes. Fervilhava de turistas, de eventos e de cultura, em parte porque um artista chamado Christo (na altura e para mim era só “um” artista…) decidira embrulhar o Parlamento Alemão. O Reichstag, símbolo da democracia, estava totalmente envolto como uma vulgar e tradicional encomenda de mercearia, com a excepção que aqui o papel pardo e cordel tinham dado lugar a uma lona cor prata e muitos metros de cabo de aço.


À noite juntávamo-nos a outras centenas de pessoas de todas as nacionalidades no relvado próximo do Parlamento e ficávamos horas a ouvir os mais diversos músicos de rua e ver o jogo de projecções que transformava o Reichstag num fogo de artificio de luz e cor. A melhor imagem de Berlim será sempre a da festa que todas as noites acontecia naquele local.
O meu primeiro encontro com o muro (ou pelo menos com a maior porção preservada), aconteceu depois de uma viagem de comboio e algum corta mato por um terreno baldio nos arrabaldes da cidade.


Encontrei uma parede de betão imensa, a perder de vista, coberta de graffitis (muitos sem qualquer nexo) e “guardada” por uma comunidade de Punks instalados em tendas e carros abandonados.


Festejámos o achado e todos recordámos as imagens que nos tinham chegado em 99. Naquele momento, à frente do maior pedaço de muro ainda de pé, a alegria do derrube era também nossa.

Encostei-me tentando perceber onde acabaria aquela linha quando dei com uma pequena frase mesmo ao nível dos meus olhos. Escrita a caneta de feltro e numa letra diminuta quando comparada com o tamanho do betão, algum português anónimo resolveu gritar ao mundo: “não há nada como mijar no muro". Mais do que a coincidência em ter encontrado algo no meu idioma na imensidão da parede, impressionou a simples constatação que ali estava.
Ainda consegui tirar uma fotografia antes que os guardiões punks nos expulsassem aos gritos do território ocupado. Tivesse tempo e, imbuído do espírito desordeiro, acrescentaria à já minha frase “Não há nada como mijar no muro…” algo como “ …que ele acaba por cair”. Ou não será esta a melhor maneira de lidar com os muros que ainda sobram neste mundo?


terça-feira, 17 de novembro de 2009

La Chascona





Entre uma reunião e o almoço decidimos que estar no Chile e não ver pelo menos uma das casas do Neruda seria um crime imperdoável. A casa do Prémio Nobel da Literatura em Santiago chama-se “La Chascona” e é, juntamente com a “La Sebastiana” e a casa de “Isla Negra”, uma das principais atracções turísticas do Chile.

A casa fica na Bella Vista, um tradicional e boémio bairro que convive e ainda preserva alguns dos seus casarões antigos e senhoriais, sobreviventes da febre do vidro e aço que ataca a cidade. Como sempre em Santiago as árvores ladeiam as ruas que nos levam a “La Chascona”. O nome está pendurado numa placa de metal por cima da porta de entrada da casa mas o acesso faz-se pelo jardim, com inicio numa pequena loja repleta de souvenirs de Neruda (desde aventais a ímanes de frigorifico) mas, sobretudo, de livros do poeta.

O ambiente é mágico e as frases de Neruda estão por todo o lado, lembrando-nos que uma palavra pode trazer 1000 imagens… “Te amo, beso en tu boca la alegria”, “mi vida esta hecha de todas las vidas”, “Podrán cortar todas las flores pero no podrán detener la Primavera”, “Debajo de tu piel vive la luna”…

A visita teve de ser adiada para o fim da tarde já que todos os grupos estavam preenchidos. Às 18H00 cabia-nos a honra de entrar na ultima visita guiada do dia pela casa do maior poeta do Chile, Prémio Nobel da Literatura em 1971, arquitecto nas horas vagas e coleccionador compulsivo.

Deixámos as frases e a calma da casa e voltámos ao rodopio de reuniões até que, pouco antes da hora marcada, zarpámos de novo para La Chascona. Só que o trânsito de Santiago não perdoa e quando lá chegámos, uns míseros 15 minutos atrasados, já a casa estava fechada… Batemos a todas as portas, tocámos campainhas na esperança que alguém abrisse e nos deixasse entrar ou ao menos espreitar. Apareceu uma das últimas guias que lá explicou que, como não tínhamos aparecido, a nossa hospedeira na La Chascona se tinha ido embora mais cedo…

Nessa altura já estávamos no jardim da casa e percebemos que tinha sido construída numa espécie de morro, cheio de vegetação, curiosamente distribuída em diversos patamares ao qual se acedia por meio do jardim. À esquerda estava a sala de estar, à direita um outro espaço com a cozinha, mais acima dois outros quartos. Pedimos encarecidamente que nos deixasse só dar uma volta pelo jardim, ver os espaços desde fora, cheirar o ambiente… devemos ter sido tão convincentes que nos acompanhou até à biblioteca onde um outro grupo estava já a acabar a visita.

Naquele espaço, no topo da casa e camuflado pelas árvores e plantas que ali cresceram nestes anos, Neruda guardava parte da sua gigantesca colecção de livros. Infelizmente as prateleiras outrora repletas mostram agora apenas alguns exemplares: Gonçalo, o guia, diz-nos que o poeta da liberdade morreu de tristeza 10 dias depois do golpe de estado que destituiu o seu amigo Allende e deu inicio a um regime ditatorial. No dia seguinte ao da sua morte, adeptos do novo regime invadiram a casa e destruíram a maior parte de um património incalculável. A casa que ele próprio concebeu e desenhou alberga hoje apenas algumas peças que sobreviveram à fúria de quem sempre o considerou uma ameaça à segurança nacional…

Mas a verdadeira história desta viagem foi quando perguntei ao Gonçalo se ele sabia que Neruda tinha sido Padrinho de um dos filhos do Jorge Amado. Espantado por eu conhecer o episódio (expliquei-lhe que era impossível viver quatro anos na Bahia e não conhecer a vida dos Amado…) contou-me que essa era uma das histórias mais divertidas de Neruda: O Chileno foi Padrinho de baptismo do filho mais velho do seu amigo Bahiano. Quando nasceu Paloma, Jorge Amado convidou-o novamente para Padrinho da filha já que a amizade era imensa. Só que Carybé, pintor e outro grande amigo da família, já tinha sido convidado. Neste impasse a coisa resolveu-se assumindo Neruda… o papel de “madrinha” da filha de Jorge Amado.

Esta e todas as outras histórias de Neruda contadas a correr fizeram com que a visita valesse muito a pena. Tanto que ficou uma vontade imensa de voltar. Talvez na próxima viagem…

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Santiago





Chegar a Santiago do Chile é uma emoção. No sopé dos Andes encontramos uma cidade única, moderna, segura, repleta de arranha céus, jardins, passeios amplos e limpos. Tudo impecável, bem desenhado, novo, mais próximo de algumas cidades europeias (talvez mesmo alemãs) que da América do Sul.

Os 6 milhões de habitantes de Santiago (1/3 do total da população) andam com prazer pelas ruas e, ao fim da tarde, enchem os parques, as veredas e os passeios à beira rio. Apesar das torres de escritórios e apartamentos com as suas fachadas em vidro (que rivalizam com os picos dos andes cobertos de neve), Santiago é uma cidade verde. Não há avenida que não tenha uma fileira de árvores nem passeios sem um canteiro de rosas (sim, rosas…). As varandas dos edifícios (nenhuma delas com marquise) estão repletas com plantas de todos os tipos, sobretudo buganvillias, dando à linha do horizonte da cidade um ar próximo ao dos jardins suspensos da Babilónia.
Percebemos que os Chilenos são um exemplo de determinação e organização, atentos aos detalhes e com uma noção de qualidade de vida que surpreende todos quantos aqui chegam.
Ninguém é indeferente ao facto da organização ser algo de intrínseco à vida deste país. Tanto, que o próprio lema que consta da bandeira é “Ordem e Pátria”… Nada melhor que passear por Santiago para ver como os Chilenos não deixam esse principio cair em saco roto.

domingo, 18 de outubro de 2009

Leonor


Devias ter perto de 3 anos quando, numa minha visita a Lisboa, decidimos fazer um passeio especial. Com o António, o tio Ali e a tia Caia lá partimos, numa tarde de Verão, a explorar o Museu da criança em Belém. O Museu não era mais que uma série de salas sucessivas com diversos jogos e animação, nos quais tu tentavas participar activamente. Insistias em fazer tudo o que teu irmão fazia e reclamavas quando alguém te impedia por falta de idade ou tamanho. Não sei quem gostou mais da visita (se voces ou nós os adultos) mas o que é certo é que chegámos ao fim sãos e salvos e o teu irmão com uns bigodes e barbicha. Nesta ocasião recusaste-te a que alguém te pusesse a mão para pintar uma borboleta na cara, ameaçando chorar a altos berros caso insistissem...


Saimos do museu e fomos directos para os jardins do CCB, aquele edificio que a voces certamente pareceu enorme e deserto. Antes do gelado e das Coca Colas, fartei-me de tirar fotografias vossas deitados na relva, com poses de modelo, ora sorrindo para a câmara ora fazendo cara de maus... porque as fotografias "normais" não têm graça nenhuma, certo?


Acabámos o "lanche" e, como já se fazia tarde e tinhamos ultrapassado o horário imposto para o regresso, decidimos levar-vos a casa. Nesse momento, não me perguntes porque, achaste que era hora de fazer uma birra em pleno pátio central do CCB... Escandalo? Não! Nem gritos nem alarde... simplesmente viraste as costas e foste embora no sentido oposto àquele onde estava o carro. Braços a abanar, cabeça coberta por um enorme chapéu azul e só vimos como te afastavas cada vez mais. Traçaste uma linha recta rumo ao infinito e nós ficámos à espera para ver quando paravas ou olhavas para trás. A tua figura diminuta, de mini saia azul às flores e t-shirt rosa, parecia cada vez menor à medida que caminhavas. Esperámos e nada... não te voltaste uma unica vez.


Nessa altura, furioso com a desobediência, fui a correr atrás de ti para te forçar a vir pelo bom caminho. Cheguei ao teu lado disposto a aplicar o meu poder de tio quando finalmente paraste, com uma cara que desarmaria até o mais decidido. Não consegui senão esboçar um sorriso e tirar-te uma ultima fotografia. Percebi naquela altura, e ainda hoje acredito, que não tinha sido o acaso a dar-te nome de Rainha.


Podem passar 100 anos que esta história será sempre a "tua" história comigo. Quanto à fotografia, tirei-a hoje da moldura que a guarda, no meu escritório, para a partilhar aqui contigo. É ela que, dia a dia, me faz companhia e me lembra, se é que é possivel esquecer, que serás sempre grande. Grande como uma Rainha, Leonor.



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

As livrarias


El Ateneo é uma das melhores livrarias de Buenos Aires e provavelmente uma das mais conhecidas do mundo. Está instalada no antigo Teatro Gran Splendid, edifico inaugurado em 1919. Em 2000, tansformaram-no numa Livraria, mantendo porém muitas das suas caracteristicas de Teatro.


Onde antes estava a plateia estão agora corredores e prateleiras cobertas de livros. Os camarotes mantêm ainda parte da sua estrutura e lá dentro estão confortaveis sofás onde se pode ler algumas das obras à venda; O palco foi transformado em café da livraria e possui um enorme piano onde todas as tarde se ouvem clássicos argentinos; e o foyer de entrada no Teatro está agora repleto de caixas registradoras e as ultimas edições argentinas ou estrangeiras.


O lugar manteve o piso em alcatifa vermelha, as paredes em dourado e os cortinados em veludo pesado. Todos os frescos da magnifica cupula do salão principal foram recuperados e a sensação que temos é a de que, a qualquer momento, as luzes vão descer de intensidade e a peça vai começar.


Lembrei-me de ir ao Ateneo ver se encontrava alguns livros ou cds e também porque, segundo noticias que vi num jornal antigo, o Ateneo tinha sido considerado pelo "The Guardian" como a 2ª mais impressionante livraria do Mundo. Que melhor motivo para rever aquele edificio?


Depois de umas breves compras, à saida vejo o tal ranking onde constava, em destaque, o "meu" Ateneo. O espanto é que aquela mesma tabela, depois do Ateneo e de uma qualquer igreja em Mastricht, indica que a 3ª livraria mais maravilhosa do Mundo está, nada mais nada menos, que no Porto... Isso mesmo, aquela cidade no norte de Portugal. Trata-se da Livraria Lello, uma das mais antigas do país e um exemplar único nesta coisa da arquitectura das Livrarias. Fiquei alguns minutos parado sentindo-me a pessoa mais ignorante do mundo por nunca lá ter ido ou sequer ouvido falar da sua existência. Claro que isso passou depressa: Saí com um orgulho imenso e uma vontade única de dizer a todos que a seguinte da lista se encontrava no meu país. Enfim... próxima visita ao Porto lá estarei.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

El Refugio


Bariloche fica a duas horas e meia de Buenos Aires, em plena Patagonia Argentina. Quando chegamos impressiona a paisagem lunar, a terra vermelha e os arbustos secos pelo vento frio que desce das montanhas. Com as planicies convivem picos cobertos de gelo e lagos cor cinza. Estamos no principal destino de neve da América do Sul, uma espécie de Suiça num Continente que nos habituámos a ver como exclusivamente quente e à beira mar.


Mal chegamos ao hotel (23 quartos que dão directamente para o lago Gutierrez, uma porção de água emoldurada por duas montanhas nas quais se instala um por do sol encomendado) fomos informados que tinhamos de sair de imediato para o jantar. Este seria no topo de uma montanha onde tinhamos de chegar antes da noite cerrar. O local chama-se, muito apropriadamente, "El refugio" e a ele só chegámos graças aos esforços de um todo terreno que teimosamente subiu os 1000 metros de altura que nos separavam do sopé da montanha.


Os 4 graus negativos que se faziam sentir obrigaram-nos a avançar velozmente para o interior de algo que parecia uma cabana de montanha, iluminada apenas por uma fraca lampada de exterior. Com a noite a cair e rodeada por árvores esta casa parecia o cenário de um filme do Walt Disney. Ao entrar, e depois de descer 3 degraus de pedra, percebi que aquele não era um lugar qualquer. A estrutura de troncos de madeira e pedras contrastava com o outro extremo da cabana, totalmente coberto de vidros compondo uma janela gigante. Estávamos no cimo de uma falésia de onde podiamos ver o anoitecer sobre Bariloche, as suas montanhas brancas, os lagos e as casas sendo lentamente iluminadas.


O refugio é uma cabana adaptada a restaurante e em que a rainha da festa é uma lareira gigante onde arde um fogo há muito preparado. Além da luz quente que daqui emana a unica iluminação é a de dezenas (DEZENAS!!!) de velas espalhadas um pouco por todo o lado, desde as prateleiras do bar até as mesas de jantar. É uma obra de arquitectura que surpreende pelos materiais usados e, sobretudo, pelo excelente aproveitamento do espaço e das vistas.


Contam-nos então que aquele projecto foi o trabalho árduo de um artesão local que, durante anos, subiu aquele percurso com o intuito de descobrir a melhor forma de tirar proveito do local, dos materiais, da paisagem.. procurou o melhor posicionamento e planeou até ao detalhe como transformar aquele lugar num miradouro único e especial. Durante anos planeou e depois trabalhou naquele que é um dos projectos de arquitectura mais fantásticos que já vi.


No seu ultimo dia de obra, quando o espaço estava pronto e só faltava estrear, o mesmo artesão que com tanto afinco aqui trabalhou, faleceu vitima de um ataque cardiaco durante a habitual viagem de regresso à aldeia. Disseram os nossos anfitriões que a voz corrente na aldeia era a de que para ele e depois daquela obra, nenhuma outra faria sentido. Ficámos admirando ainda mais o trabalho de uma vida. O primeiro brinde, quando conseguimos quebrar o silêncio, foi em sua honra.

domingo, 4 de outubro de 2009

La Negra

Acabo de chegar a Buenos Aires e a primeira noticia que vejo nas televisões do aeroporto é que morreu a Mercedes Sosa.. Grandes chamadas de atenção para aquele que será, certamente, um dia negro para a maioria dos Argentinos. Mercedes Sosa era uma espécie de Amália das Pampas pelo que é fácil imaginar a comoção popular que a sua morte provoca. Foi uma cantora popular, folclórica, mas com uma voz inigualavel. Tão inigualavel que não há vez nenhuma que eu venha a Buenos Aires que não procure o seu CD mais recente para levar para Lisboa.

Vi-a ao vivo no Teatro Colon, em 2004 e em Buenos Aires, acompanhada por uma Orquesta Sinfonica e diversos convidados. Foi um espectaculo fantástico em que a voz de "la negra" (voz de contralto), habituada às canções de protesto e às militâncias de esquerda, estava desta vez acompanhada pelo elitismo de uma orquesta completa. A distribuição da orquesta era a habitual e sobresaia a figura sentada no centro daquele palco gigantesco, vestida de preto com um xaile vermelho, tão vermelho que rivalizava com os pesados e enormes cortinados de veludo do Colon.

Impressionante era ver o publico de um dos mais conhecidos teatros da América, rendido, a aplaudir de pé a maior cantora argentina. Provavelmente o mesmo publico que agora, já perto das 23H00 aqui em Buenos Aires, espera pacientemente à porta do lugar onde o seu corpo está em camara ardente para prestar-lhe a ultima homenagem. Enquanto isso, na televisão, transmitem extractos de concertos com algumas das musicas que a tornaram popular.

Por mim, a unica homenagem de que me lembro é amanha tentar comprar mais alguns CDs da Mercedes Sosa. Será certamente uma maneira fantástica de relembrar aquele concerto de 2004.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pardalinha







"Amo-te Pardalinha" deve ter sido das melhores mensagens que já vi grafitadas nas paredes de Lisboa. Dei com ela no outro dia, à beira Tejo e imediatamente esbocei um sorriso pensado no orgulho de quem afirma, de uma forma tão duradoura, a admiração pela avezinha da sua vida (que também pode ser a vergonha de quem vê exposto o carinhoso nome que lhe deram... neste caso por um tal de Crespo).


O que é certo é que serviu para lembrar-me de uma série de casais que conheço ou conheci que se dão (ou, em alguns casos, davam) mutuamente os nomes mais estranhos.

A começar por uns primos do meu pai (a Eva e o Desidério) que sempre se trataram por "velhinha" e "velhinho". Era um sinal de amor mas convenhamos que um pouco decadente. Um amigo meu trata a mulher por "Andrezinho" (!) ou "Bambam" e um outro primo, também ele já com uma certa idade, tratava a companheira dos ultimos (muitos) anos por "Bezugo". Ou ainda, em ataque meloso de paixão, por "Bezuguinho"... Não é uma visão bonita mas o certo é que ali até rimava.


Depois temos a Tia Nocha que trata o marido por "Picho" ou "Pichinho", um ex colega de trabalho que tratava a mulher por "fofinha" (ela não era nada gorda) e um amigo de infância a quem a mãe e as irmãs tratavam por "cookie"... acho que ainda tratam.


O meu pai tratava a minha mãe por Carpia, como legitima descendente da Carpissa. Aliás, todos os meus tios espanhois tratavam as mulheres assim. Isto, contudo, era mais por provocação... é que a Carpissa ficou conhecida por ser uma mulher determinada (ou teimosa) e temperamental (ou com mau feitio) e qualquer associação com esta era mal interpretada pelo lado feminino da minha familia materna.

Há ainda a "Kikolita", o "Wally", o "Chancho" e a "Popota" ou "Popotinha"... Tudo nomes fantásticos, nada fáceis de soletrar, mas que poderiam perfeitamente estar estampados numa qualquer parede de Lisboa, acompanhados também eles de um coração vermelho gigante.


Quanto à Pardalinha, não faço a minima ideia se será assim tão amada quanto indica o Grafitti e se o nome vai durar muito mais tempo. O que sim sei é que, se tiver 10% do sucesso que estes tiveram e durar o tempo que duraram, já não é nada mau.

PS: Os Graffitis da Pardalinha e do Crespo estendem-se por uma série de paredes desde Algés até Alcantara e sempre com vista para o Tejo... 4 Km de manifestações únicas. Agora sim tenho certeza que a Pardalinha viverá para sempre feliz com o seu Crespo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sr Branco



O senhor Branco é o colaborador mais velho da empresa onde trabalho. Tem mais de 90 anos e foi, durante a maior parte da sua vida, funcionário interno do Marques de Valle Flor, antigo proprietário do Palácio com o mesmo nome.


Durante a obra de transformação e recuperação do edificio (que durou 10 anos) o Sr Branco era presença habitual no estaleiro de obra, controlando o que faziam os engenheiros e confirmando que o futuro espaço ficaria próximo daquilo que era antigamente.


Terminada a obra foi proposto ao Sr Branco (na altura já com oitentas) continuar a trabalhar no Hotel. As suas funções seriam apenas e tão só receber e despedir os hóspedes ou visitantes no acesso principal do Palácio. Mandaram fazer uma espécie de fraque bordeaux e cinzento com um chapéu de coco da mesma cor e desde essa altura, seja Verão ou Inverno, o Sr Branco está diáriamente à porta cumprimentando todos quantos entram ou saem com uma inclinação de cabeça e pequeno toque no chapéu.


É um mixto de simpático avô e elegante marquês, com o seu cabelo branco, olhos rasgados pela idade e sorriso franco e pronto.


Sempre que saio do hotel baixo o vidro do carro, desejo-lhe boa noite e de volta recebo um "muito obrigado e até amanhã". Há dias em que a conversa se prolonga mais (sobre o tempo - que para ele está sempre óptimo! - a ocupação do hotel - cada vez mais cheio! - ou o movimento da rua - sempre calma e agradavel!).
Ontem à noite, porem, havia um assunto diferente. Quando acabei o trabalho senti um cheiro intenso a queimado misturado com a humidade no ar. Ao sair, depois do tradicional boa noite e respectiva vénia, perguntei ao Sr Branco de onde vinha aquele cheiro. "Cheiro a queimado?" perguntou ele surpreendido e olhando para os lados. "Não sinto cheiro nenhum..." afirmou então. Ainda insisti mas a resposta foi a mesma, dada com o sorriso de sempre e ainda a segurar o chapéu com as duas mãos.


Fui-me embora resignado, sem decifrar o enigma do cheiro mas sorrindo por ter percebido a estratégia do Sr Branco: faça chuva ou faça sol, cheire a flores ou a queimado, a vida à porta daquele hotel tem de ser sempre fantástica e positiva. É esse o papel do actor principal deste filme e ele desempenha-o na perfeição. Ou não será aqui que começa a magia de um 5 estrelas?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

274

Cheguei a casa. Saio das vias rápidas que me levam ao centro e, ao entrar na Rua da Mouraria, reconheço o barulho ao deslizar sobre o pavimento em pedra. Os paralelipipedos negros de basalto, alinhados em espinha e brilhantes pelo passar do tempo, contrastam ainda mais com o casario branco da rua. Antes de começar a descer revejo a Igreja de São Pedro, o velho centro comercial e a Rua das Pretas - onde antes estava a pastelaria Felisberta coberta com os seus armários de madeira e portas de vidro e, mais ao fundo, a famosa Iris. Viro na Rua da Mouraria, passo pelo Museu e aquário municipal e desemboco na Rua da Carreira. Ainda consigo ver de relance a minha antiga escola Primária, o Cine João Jardim (uma das maiores salas do país inaugurada nos anos 60, com capacidade para 1233 pessoas, que deve o nome ao seu fundador... nada a ver com o actual politico) e a Residencial Flamingo. Aqui começa a subida da Rua da Carreira.



Esta foi a rua procurada pelas familias nobres do Funchal e onde ainda hoje são patentes os sinais altivos dos grandes casarões. Aqui tiveram residência o Visconde do Canavial e o próprio João Gonçalves Zarco que, de um dos torreões e miradores existentes em quase todas as casas, certamente avistava o mar prata que o levou até aqueles lados do Atlântico.



Seguindo o meu caminho, atravesso a Rua Pimenta Aguiar, passo pela casa do Bispo (agora com magnifica e organizada praça à volta de duas árvores da borracha imensas) e, antes de chegar ao destino, ainda vejo a casa dos Sousas e da D. Hilda (onde viveu o escultor Francisco Franco), agora totalmente abandonada e à espera de uma qualque nova construção em altura...


Chego à rua da Carreira 274.

Podem passar 100 anos, construir passeios e proibir o estacionamento na rua que este prédio não muda. Rodeado por um sem fim de edificios novos e apesar de terem cortado quase todas as árvores do cemitério inglês (substituiram-nas por outras que nunca terão aquele glamour... onde estão os ecologistas quando são precisos?), o prédio da Rua da Carreira 274 continua a ser o mesmo.

Atravesso o portão e reconheço o vento fresco na entrada. A mistura de pedras (desde o mármore às vulcanicas, passando pelo calhau cortado) e o corrimão de madeira vinda do Brasil fazem-me pensar no cuidado e critério com que foram escolhidos os materiais (provavelmente pelo próprio proprietário, à época emigrado no país de origem do dito corrimão).


O barulho e velocidade estonteante (!) do elevador não param de me surpreender. Abro a porta de casa e tudo está como sempre esteve. As paredes cheias de quadros (sobretudo aguarelas e quase todas minhas - da fase "inglesa"), o chão de madeira escuro, os sofás de cabedal, a "colecção" de canapés e o relógio de parede.

Antes tudo parecia maior, mais vazio. Tão vazio que conseguiamos fazer luta greco romana no tapete da entrada sem destruir um bibelot sequer, deslizar pela casa em meias sem qualquer obstáculo pelo meio (às vezes puxado com o cinto de um robe por um dos meus irmãos, com inicio no quarto da avó Felicidade e fim na varanda da sala) e jogar bowling no mármore frio da entrada com os 100 pitufos e um berlinde... De repente fico com a sensação que neste espaço nunca caberiam todos os convidados das centenas de festas de aniversário, milhares de almoços e jantares de familia e outras tantas celebrações diversas. Todas as semanas havia qualquer coisa para comemorar e cada evento destes daria um post único.

A tentação em relembrar todos estes acontecimentos é grande mas limito-me a confirmar que, independentemente da dimensão das coisas e do maior ou menor espaço de circulação, o que é certo é que a casa é a mesma e o cheiro, o silêncio e a atmosfera daqui são aqueles de que me lembrava.

Só pode significar que, mesmo viajando mil vezes, mudando de país ou de cidade, esta será sempre a minha casa. Tiro os sapatos e deito-me no sofá da sala, abraçado a uma almofada e ouvindo o relógio de parede. Acho que cheguei.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cinema Paraiso



Apesar do calor insistir em nos castigar a todos quantos não estamos na praia, o Verão chega hoje ao fim. Foi uma estação longa, sem férias (pelo menos para mim) mas com muita animação à mistura. A casa nova do Meco teve esse mérito: o de fazer com que fosse sempre bom lá chegar depois do trabalho, ainda de dia e a tempo de aproveitar um mergulho na piscina e desfrutar os ultimos raios de sol. Entre os jantares, os cocktails de fim de tarde, o Rosé gelado, os jogos de TABU, os torneios de Singastar, os check ins e check outs e as visitas dos muitos que estes meses por lá passaram (e foram muitos, acreditem), o Verão vai deixar saudades. A obra prima das organizações foi, contudo e sem sombra de duvida, o nosso cinema ao ar livre. As projecções na parede de casa e a sala exterior com os magnificos sofás de napa e as almofadas indianas ganharam adeptos pelo que seguramente no próximo ano há mais.


Foi uma espécie de homenagem ao "Cinema Paraiso", com aquela banda sonora acompanhada por grilos, sapos e murmurar de sobreiros. Faltou apenas o louco da aldeia que expulsava todos quantos se aproximavam da praça aos gritos de "Mezza Note. La piazza e mia!!". No nosso caso, e chegada a hora critica, o louco de serviço, em vez de expulsar todos quantos ali estivessem, limitava-se a piscar os olhos e retirar-se discretamente para então cair nos braços de Morfeu... Fica prometido que no Outono há mais...


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Hotel 5 estrelas

Chegavam às centenas. Atarefados, sempre com muita pressa e carregados de malas. Aquele era um hotel especial e os seus hóspedes estavam à altura. Vinham das mais diversas partes à procura de descanso e conforto e sabiam onde o podiam encontrar.


Pela porta principal, fielmente guardada por um empregado de libré azul escuro debruada a ouro e encimada por um chapéu estilo militar, chegavam os mais diversos personagens. Na memória de quantos assistiam a este rodopio, ficavam imagens como a daquele novo Embaixador de um país longinquo, vestido ainda de gala depois da tomada de posse e seguido por um séquito de personagens e autoridades locais. Bem como o rebuliço por causa da chegada de uma reconhecida actriz, loura fantasia, de vestido vermelho e enorme chapéu de abas, perseguida por um bando de fotógrafos insistentes. E que dizer do empresário de sucesso, com as suas polainas reluzentes e o seu fato casaco apertado (a barriga não ajudava), gravata de seda decorada com um alfinete cravejado de brilhantes. Claro que havia também a familia com o pai carregado de malas e a mãe a puxar pelos dois filhos mais novos, o casal de recem casados em lua de mel, o grupo de freiras apressadas e à procura de repouso antes de começar uma nova peregrinação.



Dia tras dia repetia-se o ritual de partida e chegada. Havia sempre novidades, cada uma mais marcante e sempre mais rocambulesca. A hora também influia no agito das chegadas. Era ao entardecer, quando o sol começava a por-se no horizonte, que o afluxo aumentava e a nossa excitação também. Imaginávamos como se acendiam as luzes, o brilho dos lustres nos salões, as mesas com toalhas brancas impecaveis e os chás com bolos tomados por todas aquelas personagens. O desfazer das malas nos quartos, a organização dos eventos familiares e o protocolo das festas em mais de uma ocasião. As saidas apressadas para ir buscar qualquer coisa em falta e a expectativa de quem ficava à espera daquele regresso. Viamos tudo com a maior emoção e era sempre a minha mãe quem primeiro nos chamava a atenção para os mais recentes turistas.


Assim era até o momento em que, pouco a pouco, a lua começava a ocupar o lugar do sol e a noite derramava o seu tinteiro. Nessa altura e sobre aquele hotel, caia o silêncio. Era como se, de repente, tudo parasse e não houvesse qualquer vida no seu interior. Era a hora do descanso, para os hóspedes e para nós. A imaginação parava e aquele hotel de luxo, que momentos antes tinha sido a casa de tantas estrelas, transformava-se no que realmente era: uma enorme e secular árvore mesmo à frente da nossa varanda. E os hóspedes que tão atarefados saiam e entravam naquele destino mais não eram que tentilhões, corre caminhos, melros e papinhos - simples mas agitados pássaros à procura de um lugar para passar a noite. Os actores perfeitos para uma história reeinventada todos os dias à mesma hora e sob o calor húmido da Primavera no Funchal.


Era assim a vida no nosso "hotel dos pássaros", o filme que nos ocupava dia após dia e sempre ao fim da tarde, no ultimo andar de um prédio à Rua da Carreira.


Para mim, a aparentemente enorme varanda lá de casa foi sem duvida a melhor sala de cinema em que alguma vez estive.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As tentativas

Sempre quis ser advogado. Não sei muito bem a que se devia aquela paixão pela justiça (se é que era pela justiça..) já que na familia não havia nada de semelhante (a não ser um ou outro primo... ninguém de relevante).


Racionalizando a coisa, encontro hoje mil e um motivos, todos eles válidos. Desde a admiração por quem a exercia (Dr Alcino, que mais tarde viria a ser o meu patrono, estava no topo da lista), ao fascinio pelo "teatro" do tribunal (sempre me vi de toga a debitar palestra desde o meu pulpito...) passando pelos mais que muitos elogios à minha capacidade argumentativa (ou, em portugues corrente, ao facto de eu ser um chato que não me calava enquanto não conseguia o que queria).



A familia mais próxima encarnava o papel de potenciador de auto estima dizendo que eu estava destinado a ser um advogado brilhante. Em resposta espalhava aos quatro ventos que assumiria aquele fado e todos viviamos felizes imaginando-me riquissimo com a longa toga preta em plena sessão de julgamento.


Fiz todo o Secundário com esta ideia na cabeça, escolhi as cadeiras mais apropriadas para um advogado como deve ser (até Latim tive... uma lingua morta que nenhuma utilidade me trouxe) e, quando chegou a altura das escolhas, surgiram as duvidas. Não sabia bem se o Direito era a minha vocação ou se, contrariando uma já longa carreira de prática do poder da oratória, deveria optar antes pelas belas artes.


Aos 17, pronto para escolher o futuro (acho que nessa altura, como hoje, o futuro começava na Faculdade), sentia-me igual a um noivo à porta da igreja. Os convidados lá dentro, a festa já paga e aquele receio de estar a fazer uma escolha que poderia não ser para a vida toda.


Nas vésperas de entregar os papéis para a Faculdade, informei lá em casa que Belas Artes seria a nova opção, trocando a preta toga pela bata branca e contrariando assim uma longa vida (desde os 10 anos...) de convicções. Abandonaria, de um dia para o outro, a louca e permanente ideia de seguir o caminho da Lei.


Após o choque inicial, a primeira reacção veio da Avó Felicidade. Depois de reclamar (ou, em madeirense corrente, "cramar") que eu tinha ficado louco, resmungava pelos cantos e nas minhas costas que Belas Artes nem titulo de "Doutor" dava... quanto mais dinheiro! Acrescentava que eu ia viver na rua, pintando à porta de uma igreja e sem qualquer meio de sustento. Um visão que tinha tanto de horrivel (segundo ela) quanto de romantico (achava eu).


Os meus pais adoptaram a postura cool (ou de preocupação camuflada) e só argumentavam que pintura podia ser um hobby mas talvez não uma carreira, dando exemplos de inumeros médicos do meio que tinham optado por esse esquema.


A coisa foi caminhando e eu achei que a reacção até nem tinha sido má. Sentia que havia decepção mas nada que colocasse em risco a minha profissão futura. Via-me já em Lisboa (ou noutro sitio qualquer) com 3 pincéis na mão e muita tinta pela frente... até que tudo mudou novamente.


Mudou com uma daquelas conversas pré jantar. Depois das mesmas perguntas de sempre (se eu estava mesmo decidido, se tinha ponderado os prós e contras e se achava mesmo que aquilo seria melhor que o direito), o meu Pai reafirmou o que tantas vezes tinha dito naqueles dias: que depois de tirar o curso eu podia fazer o que quisesse, incluindo ser pintor. Obviamente rebati dizendo que estava decidido e que Belas Artes era o que mais queria. Até que chegou o argumento crucial e a pergunta fatidica. Com aquele ar de quem aposta as fichas que lhe restam num ultimo jogo, só o ouvi dizer "Não percebo... para alguém que sempre teve convicções tão fortes em relação a tudo, é estranho mudar de ideias assim, de um dia para o outro... ou já tens essa ideia há muito?".


Nesse momento, do alto dos meus 17 anos, repleto de certezas e confianças, faltou-me a argumentação. Alguém (ainda para mais o meu pai) ousava acusar-me de falta de coerência. Foi o choque necessário para perceber que Belas Artes só tinha surgido à ultima hora, por receio de fracassar a entrada em Direito. Seria certamente menos humilhante que não entrar na carreira que sempre tinha querido.


Até que uma simples frase me trouxe de volta à realidade. Após alguns segundos, ouvi-o dizer "não te preocupes; tentas Direito e, se não conseguires, logo pensas no que fazes a seguir".


Algumas semanas depois, em plenas férias de Verão, fiquei a saber que tinha entrado em Direito e na minha primeira escolha: Lisboa. Passados alguns anos, posso dizer que os prognósticos iniciais da familia em me ver como advogado de toga preta estão há muito reduzidos a cinzas. Foi certamente a consequência de tantas (e tão boas) tentativas. Oxalá consiga continuar assim.


PS: Antonio, este vem a propósito do teu Post sobre o regresso às aulas e a tua matemática (ou previsibilidade) das notas... o meu prognóstico (mesmo que ainda não seja o fim do jogo) é de que te vão sair mais 5 do que aqueles que tu imaginas. Para isso só tens de aplicar a máxima do teu avô Alipio: tentas... se não conseguires, logo pensas no que fazes a seguir. Comigo tem dado MUITO resultado...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

As eleições no UruguaY


Estou no Uruguai.
À semelhança de Portugal, também aqui só se fala de eleições: em Outubro há Presidenciais e em Novembro autarquicas. Andamos mano a mano com a história dos locais. O candidato de esquerda nacional é aquele que mais hipóteses tem de ganhar as eleições. Possuidor de um eleitorado fiel, Pepe Mujica (incluo a foto - nem o photoshop o salva do ar de personagem de Senhor dos Aneis) é um homem do povo, que fala como o povo e com quem este se identifica. Nos anos 70 foi lider revolucionário, colocou bombas, roubou bancos e casinos, matou agentes da autoridade, tudo em nome de uma revolução anti regime politico (democraticamente) instalado. Quando lhe perguntam pelo seu passado e se este não pode "ofuscar" a sua eleição, diz que aquilo que fez (e que reconhece) eram coisas normais naqueles tempos. Tão normais e insignificantes que é muito provavel que seja ele a receber como Chefe de Estado a Carla Bruni ou a Michelle Obama nas suas próximas visitas a este pais...

Nós, à falta de bombas e roubos, gastamos rios de tinta e horas de telejornal a discutir porque é que um Ministro do Ambiente, na altura, teria recebido um grupo de empresários com problemas no licenciamento do seu projecto... Além de o acusarmos de falta de caracter porque usa indevidamente (dizem) o "Eng" antes do nome próprio no seu cartão de crédito... É uma questão de principios, moral e honestidade, dizem alguns.
Eu digo que ou é uma questão de caridade cristã (e os uruguaios têm-na) ou então algum efeito da diferença de Latitude... mas o que é certo é que, para nós - em Portugal, há "crimes" que não se perdoam. Nunca.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O regresso...


Voltou tudo (ou quase tudo) de férias com energia redobrada. As cores do verão, os quilos a mais de tanta churrascada e bola de berlim, o olhar perdido no horizonte com saudades da areia ou da montanha... olham para nós com a cumplicidade estranha de quem partilhou experiências ainda que não no mesmo destino.

O encanto é logo quebrado quando o interlocutor, ainda não tão queimado, diz "eu não fui de férias... só lá para Outubro". O (ex) veraneante transforma-se. Começa logo a perguntar como estão as coisas, que tal vai o negócio e o que há de novo. A cara muda e o olhar relaxado e disperso transforma-se em algo próximo a "vamos lá mostrar preocupação e seriedade agora que voltamos à vida real".

Ainda ontem a Fátima dizia que os primeiros quinze dias de Setembro são muito maus. Mesmo MUITO maus. Concordo a 100%. Os pais não sabem o que fazer em Lisboa com as crianças ainda sem escola, o transito volta a ser o caos de sempre e a depressão pós verão (ou pré inverno) instala-se na maioria dos lares... o calor continua lá fora mas o tempo e os afazeres não permitem voltar à praia (mesmo que ela esteja do outro lado da rua...).

É por isso que, de regresso ao trabalho, todos se entregam de corpo e alma às tarefas que abandonaram, hibernando, até ao próximo ano, a fera de verão em que se transformaram escassas semanas antes. Os piores são aqueles que se desunham em sucessivos pedidos de reunião, de ponto de situação ou outras. É como se a vida tivesse parado enquanto todos estavam a banhos. Para isso há que recomeçar por algum lado e nenhum melhor que o esquema das reuniões: para anunciar, expressa e visivelmente, que estamos de volta, somos imprescindiveís e não abdicámos do poder/cargo/funções que tinhamos só porque cedemos à tentação e metemos os pés na areia... Assim, pouco a pouco, começamos a preencher uma agenda que se viu vazia. Misteriosa, assustadora e perigosamente vazia.

A todos estes e como homenagem, deixo a nota anexa e um conselho: Pensem mais na praia (mesmo que não estejam de férias) e menos no show no trabalho... eu, que ainda não fui a banhos, garanto que resulta.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

19 Agosto II

Puntillitas, revueltos, boquerones... para o ano há mais!




































terça-feira, 18 de agosto de 2009

19 de Agosto



Parabéns Mikito! Hoje fazes anos.

Ainda não sei muito bem se Cabul, com as suas linhas telefónicas malucas, nos vai deixar falar por isso decidi escrever-te este post. É sobre algo que há muito queria dizer e reconhecer e, sinceramente, não vejo melhor maneira de o fazer que esta.
Tem a ver com a Estudantina Universitária de Lisboa, a tua vida, a minha e a de toda a familia.
Lembro-me que a Estudantina apareceu, vinda não sei bem de onde, ainda nos tempos de Faculdade. Ouvia-te falar dela em casa, dos diversos amigos que por lá passavam, das musicas, dos ensaios e concertos. Dos caloiros que chegavam e daqueles que, por uma ou outra razão, deixavam de fazer parte. Assisti a espectaculos e participei de jantares até um ponto em que, confesso, cheguei a enjoar a Estudantina.
Acho que para isso contribuiu o facto de lá em casa se ouvirem até à exaustão e pela tua mão os CDs com os ensaios próprios, aqueles com versões das outras tunas e as gravações (não sei se ilicitas mas feitas com gravadores de baixa qualidade) de espectaculos por esse país fora. Ouvi as histórias das viagens (o "Uma bez, binha eu da Xuicha...", os desmaios em Passofundo, os encontros com outros VIPs nos festivais...) e não me cansei de dizer que mais pareciam uma seita religiosa (tudo em honra do Deus Bandolim) que um grupo musical.
Nessa altura via a Estudantina como "aqueles fundamentalistas dos acordes perfeitos" que nos olhavam simpaticamente, a nós - pobres mortais com vozes sofriveis, com profunda condescendencia. A verdade é que eu também adorava a vossa musica... mas tanto também era demais! e ter de ficar sentado (sob pressão tua... fisica!) a ouvir pela trigésima vez os "graves" (ou seriam os agudos?) de um qualquer solista de outra Tuna... era dose! Por vezes dava comigo a pensar se o enjoo não seria provocado também por um ataque de ciumes ao ver o meu irmão mais novo num caminho próprio. Enfim...
Duvidas e questões à parte, o que é certo é que a Estudantina, com o tempo, passou a estar presente em qualquer festa ou comemoração familiar, fosse aniversário, baptizado, casamento ou mera reunião ocasional. Certo como o IRS, nesses festejos saia cantoria da grossa.
Em casa ou num restaurante, finalizadas as sobremesas, lá surgia o medley ensaiado a solo ou em conjunto pelo grupo. Era uma espécie de tradição que se cumpria religiosamente e que, tenho a certeza, não deixava ninguém indiferente.

Acho que falo por todos quando digo que associamos alguns desses festejos à presença (ou não) da vossa musica. Quem pode esquecer a Serenata da Estudantina, já de madrugada, no baptizado do Antonio na Marmeleira (durou até as 4 da manhã com a Abuela Herminia a resistir estóicamente)? Ou a entrada da Caia na Igreja da Graça ao som do "Infante"? E as dezenas de Parabéns cantados a mais de duas vozes em igual numero de festas de aniversário?
Mais. Graças à Estudantina uma das primeiras palavras que o Antonio Maria disse foi "microfone" (ou, na sua linguagem internacional, "Mikito John"...) e não me admira nada que o Francisquinho consiga já marcar o ritmo numa caixa de fósforos...
Posso dizer que gastei "A Viagem" de ouvi-la tanto no Brasil. Chorava baba e ranho sempre que relembrava a familia, os amigos, a cidade, o país... Lavava a alma com aqueles acordes e a tua voz.

Acho que nem tu nem a Estudantina fazem ideia de como aquelas musicas, que também são tuas, influenciaram (e ainda influenciam) as nossas vidas. A minha, pela companhia que sempre me fizeram. A tua, por te terem transformado no Ali de hoje. A de todos, porque as vemos como a verdadeira banda sonora de uma familia, sempre presente nos momentos importantes.

Sei que todos quantos fazem parte desse grupo de cantorias são como uma segunda familia para ti e isso deixa-me feliz. Também eu os sinto assim e os reconheço como parte nossa.

Por tudo isto e muito mais a tua prenda, este ano e por razões óbvias de distância, é este reconhecimento. Prometo que hoje, se houver cantoria e como redenção, não vou desafinar. E no próximo ano, nesta mesma data e contigo presente, podes ter a certeza que vou conseguir cantar até ao fim sem descer um tom. De qualquer forma, com ou sem cantoria, um brinde por ti está mais do que garantido!

Beijos Enormes.

Eu

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Festa Branca

Fostos da festa Branca. Próxima ediçao será "Black is Back" a pedido expresso do Salvador...