quarta-feira, 30 de setembro de 2009

274

Cheguei a casa. Saio das vias rápidas que me levam ao centro e, ao entrar na Rua da Mouraria, reconheço o barulho ao deslizar sobre o pavimento em pedra. Os paralelipipedos negros de basalto, alinhados em espinha e brilhantes pelo passar do tempo, contrastam ainda mais com o casario branco da rua. Antes de começar a descer revejo a Igreja de São Pedro, o velho centro comercial e a Rua das Pretas - onde antes estava a pastelaria Felisberta coberta com os seus armários de madeira e portas de vidro e, mais ao fundo, a famosa Iris. Viro na Rua da Mouraria, passo pelo Museu e aquário municipal e desemboco na Rua da Carreira. Ainda consigo ver de relance a minha antiga escola Primária, o Cine João Jardim (uma das maiores salas do país inaugurada nos anos 60, com capacidade para 1233 pessoas, que deve o nome ao seu fundador... nada a ver com o actual politico) e a Residencial Flamingo. Aqui começa a subida da Rua da Carreira.



Esta foi a rua procurada pelas familias nobres do Funchal e onde ainda hoje são patentes os sinais altivos dos grandes casarões. Aqui tiveram residência o Visconde do Canavial e o próprio João Gonçalves Zarco que, de um dos torreões e miradores existentes em quase todas as casas, certamente avistava o mar prata que o levou até aqueles lados do Atlântico.



Seguindo o meu caminho, atravesso a Rua Pimenta Aguiar, passo pela casa do Bispo (agora com magnifica e organizada praça à volta de duas árvores da borracha imensas) e, antes de chegar ao destino, ainda vejo a casa dos Sousas e da D. Hilda (onde viveu o escultor Francisco Franco), agora totalmente abandonada e à espera de uma qualque nova construção em altura...


Chego à rua da Carreira 274.

Podem passar 100 anos, construir passeios e proibir o estacionamento na rua que este prédio não muda. Rodeado por um sem fim de edificios novos e apesar de terem cortado quase todas as árvores do cemitério inglês (substituiram-nas por outras que nunca terão aquele glamour... onde estão os ecologistas quando são precisos?), o prédio da Rua da Carreira 274 continua a ser o mesmo.

Atravesso o portão e reconheço o vento fresco na entrada. A mistura de pedras (desde o mármore às vulcanicas, passando pelo calhau cortado) e o corrimão de madeira vinda do Brasil fazem-me pensar no cuidado e critério com que foram escolhidos os materiais (provavelmente pelo próprio proprietário, à época emigrado no país de origem do dito corrimão).


O barulho e velocidade estonteante (!) do elevador não param de me surpreender. Abro a porta de casa e tudo está como sempre esteve. As paredes cheias de quadros (sobretudo aguarelas e quase todas minhas - da fase "inglesa"), o chão de madeira escuro, os sofás de cabedal, a "colecção" de canapés e o relógio de parede.

Antes tudo parecia maior, mais vazio. Tão vazio que conseguiamos fazer luta greco romana no tapete da entrada sem destruir um bibelot sequer, deslizar pela casa em meias sem qualquer obstáculo pelo meio (às vezes puxado com o cinto de um robe por um dos meus irmãos, com inicio no quarto da avó Felicidade e fim na varanda da sala) e jogar bowling no mármore frio da entrada com os 100 pitufos e um berlinde... De repente fico com a sensação que neste espaço nunca caberiam todos os convidados das centenas de festas de aniversário, milhares de almoços e jantares de familia e outras tantas celebrações diversas. Todas as semanas havia qualquer coisa para comemorar e cada evento destes daria um post único.

A tentação em relembrar todos estes acontecimentos é grande mas limito-me a confirmar que, independentemente da dimensão das coisas e do maior ou menor espaço de circulação, o que é certo é que a casa é a mesma e o cheiro, o silêncio e a atmosfera daqui são aqueles de que me lembrava.

Só pode significar que, mesmo viajando mil vezes, mudando de país ou de cidade, esta será sempre a minha casa. Tiro os sapatos e deito-me no sofá da sala, abraçado a uma almofada e ouvindo o relógio de parede. Acho que cheguei.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cinema Paraiso



Apesar do calor insistir em nos castigar a todos quantos não estamos na praia, o Verão chega hoje ao fim. Foi uma estação longa, sem férias (pelo menos para mim) mas com muita animação à mistura. A casa nova do Meco teve esse mérito: o de fazer com que fosse sempre bom lá chegar depois do trabalho, ainda de dia e a tempo de aproveitar um mergulho na piscina e desfrutar os ultimos raios de sol. Entre os jantares, os cocktails de fim de tarde, o Rosé gelado, os jogos de TABU, os torneios de Singastar, os check ins e check outs e as visitas dos muitos que estes meses por lá passaram (e foram muitos, acreditem), o Verão vai deixar saudades. A obra prima das organizações foi, contudo e sem sombra de duvida, o nosso cinema ao ar livre. As projecções na parede de casa e a sala exterior com os magnificos sofás de napa e as almofadas indianas ganharam adeptos pelo que seguramente no próximo ano há mais.


Foi uma espécie de homenagem ao "Cinema Paraiso", com aquela banda sonora acompanhada por grilos, sapos e murmurar de sobreiros. Faltou apenas o louco da aldeia que expulsava todos quantos se aproximavam da praça aos gritos de "Mezza Note. La piazza e mia!!". No nosso caso, e chegada a hora critica, o louco de serviço, em vez de expulsar todos quantos ali estivessem, limitava-se a piscar os olhos e retirar-se discretamente para então cair nos braços de Morfeu... Fica prometido que no Outono há mais...


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Hotel 5 estrelas

Chegavam às centenas. Atarefados, sempre com muita pressa e carregados de malas. Aquele era um hotel especial e os seus hóspedes estavam à altura. Vinham das mais diversas partes à procura de descanso e conforto e sabiam onde o podiam encontrar.


Pela porta principal, fielmente guardada por um empregado de libré azul escuro debruada a ouro e encimada por um chapéu estilo militar, chegavam os mais diversos personagens. Na memória de quantos assistiam a este rodopio, ficavam imagens como a daquele novo Embaixador de um país longinquo, vestido ainda de gala depois da tomada de posse e seguido por um séquito de personagens e autoridades locais. Bem como o rebuliço por causa da chegada de uma reconhecida actriz, loura fantasia, de vestido vermelho e enorme chapéu de abas, perseguida por um bando de fotógrafos insistentes. E que dizer do empresário de sucesso, com as suas polainas reluzentes e o seu fato casaco apertado (a barriga não ajudava), gravata de seda decorada com um alfinete cravejado de brilhantes. Claro que havia também a familia com o pai carregado de malas e a mãe a puxar pelos dois filhos mais novos, o casal de recem casados em lua de mel, o grupo de freiras apressadas e à procura de repouso antes de começar uma nova peregrinação.



Dia tras dia repetia-se o ritual de partida e chegada. Havia sempre novidades, cada uma mais marcante e sempre mais rocambulesca. A hora também influia no agito das chegadas. Era ao entardecer, quando o sol começava a por-se no horizonte, que o afluxo aumentava e a nossa excitação também. Imaginávamos como se acendiam as luzes, o brilho dos lustres nos salões, as mesas com toalhas brancas impecaveis e os chás com bolos tomados por todas aquelas personagens. O desfazer das malas nos quartos, a organização dos eventos familiares e o protocolo das festas em mais de uma ocasião. As saidas apressadas para ir buscar qualquer coisa em falta e a expectativa de quem ficava à espera daquele regresso. Viamos tudo com a maior emoção e era sempre a minha mãe quem primeiro nos chamava a atenção para os mais recentes turistas.


Assim era até o momento em que, pouco a pouco, a lua começava a ocupar o lugar do sol e a noite derramava o seu tinteiro. Nessa altura e sobre aquele hotel, caia o silêncio. Era como se, de repente, tudo parasse e não houvesse qualquer vida no seu interior. Era a hora do descanso, para os hóspedes e para nós. A imaginação parava e aquele hotel de luxo, que momentos antes tinha sido a casa de tantas estrelas, transformava-se no que realmente era: uma enorme e secular árvore mesmo à frente da nossa varanda. E os hóspedes que tão atarefados saiam e entravam naquele destino mais não eram que tentilhões, corre caminhos, melros e papinhos - simples mas agitados pássaros à procura de um lugar para passar a noite. Os actores perfeitos para uma história reeinventada todos os dias à mesma hora e sob o calor húmido da Primavera no Funchal.


Era assim a vida no nosso "hotel dos pássaros", o filme que nos ocupava dia após dia e sempre ao fim da tarde, no ultimo andar de um prédio à Rua da Carreira.


Para mim, a aparentemente enorme varanda lá de casa foi sem duvida a melhor sala de cinema em que alguma vez estive.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As tentativas

Sempre quis ser advogado. Não sei muito bem a que se devia aquela paixão pela justiça (se é que era pela justiça..) já que na familia não havia nada de semelhante (a não ser um ou outro primo... ninguém de relevante).


Racionalizando a coisa, encontro hoje mil e um motivos, todos eles válidos. Desde a admiração por quem a exercia (Dr Alcino, que mais tarde viria a ser o meu patrono, estava no topo da lista), ao fascinio pelo "teatro" do tribunal (sempre me vi de toga a debitar palestra desde o meu pulpito...) passando pelos mais que muitos elogios à minha capacidade argumentativa (ou, em portugues corrente, ao facto de eu ser um chato que não me calava enquanto não conseguia o que queria).



A familia mais próxima encarnava o papel de potenciador de auto estima dizendo que eu estava destinado a ser um advogado brilhante. Em resposta espalhava aos quatro ventos que assumiria aquele fado e todos viviamos felizes imaginando-me riquissimo com a longa toga preta em plena sessão de julgamento.


Fiz todo o Secundário com esta ideia na cabeça, escolhi as cadeiras mais apropriadas para um advogado como deve ser (até Latim tive... uma lingua morta que nenhuma utilidade me trouxe) e, quando chegou a altura das escolhas, surgiram as duvidas. Não sabia bem se o Direito era a minha vocação ou se, contrariando uma já longa carreira de prática do poder da oratória, deveria optar antes pelas belas artes.


Aos 17, pronto para escolher o futuro (acho que nessa altura, como hoje, o futuro começava na Faculdade), sentia-me igual a um noivo à porta da igreja. Os convidados lá dentro, a festa já paga e aquele receio de estar a fazer uma escolha que poderia não ser para a vida toda.


Nas vésperas de entregar os papéis para a Faculdade, informei lá em casa que Belas Artes seria a nova opção, trocando a preta toga pela bata branca e contrariando assim uma longa vida (desde os 10 anos...) de convicções. Abandonaria, de um dia para o outro, a louca e permanente ideia de seguir o caminho da Lei.


Após o choque inicial, a primeira reacção veio da Avó Felicidade. Depois de reclamar (ou, em madeirense corrente, "cramar") que eu tinha ficado louco, resmungava pelos cantos e nas minhas costas que Belas Artes nem titulo de "Doutor" dava... quanto mais dinheiro! Acrescentava que eu ia viver na rua, pintando à porta de uma igreja e sem qualquer meio de sustento. Um visão que tinha tanto de horrivel (segundo ela) quanto de romantico (achava eu).


Os meus pais adoptaram a postura cool (ou de preocupação camuflada) e só argumentavam que pintura podia ser um hobby mas talvez não uma carreira, dando exemplos de inumeros médicos do meio que tinham optado por esse esquema.


A coisa foi caminhando e eu achei que a reacção até nem tinha sido má. Sentia que havia decepção mas nada que colocasse em risco a minha profissão futura. Via-me já em Lisboa (ou noutro sitio qualquer) com 3 pincéis na mão e muita tinta pela frente... até que tudo mudou novamente.


Mudou com uma daquelas conversas pré jantar. Depois das mesmas perguntas de sempre (se eu estava mesmo decidido, se tinha ponderado os prós e contras e se achava mesmo que aquilo seria melhor que o direito), o meu Pai reafirmou o que tantas vezes tinha dito naqueles dias: que depois de tirar o curso eu podia fazer o que quisesse, incluindo ser pintor. Obviamente rebati dizendo que estava decidido e que Belas Artes era o que mais queria. Até que chegou o argumento crucial e a pergunta fatidica. Com aquele ar de quem aposta as fichas que lhe restam num ultimo jogo, só o ouvi dizer "Não percebo... para alguém que sempre teve convicções tão fortes em relação a tudo, é estranho mudar de ideias assim, de um dia para o outro... ou já tens essa ideia há muito?".


Nesse momento, do alto dos meus 17 anos, repleto de certezas e confianças, faltou-me a argumentação. Alguém (ainda para mais o meu pai) ousava acusar-me de falta de coerência. Foi o choque necessário para perceber que Belas Artes só tinha surgido à ultima hora, por receio de fracassar a entrada em Direito. Seria certamente menos humilhante que não entrar na carreira que sempre tinha querido.


Até que uma simples frase me trouxe de volta à realidade. Após alguns segundos, ouvi-o dizer "não te preocupes; tentas Direito e, se não conseguires, logo pensas no que fazes a seguir".


Algumas semanas depois, em plenas férias de Verão, fiquei a saber que tinha entrado em Direito e na minha primeira escolha: Lisboa. Passados alguns anos, posso dizer que os prognósticos iniciais da familia em me ver como advogado de toga preta estão há muito reduzidos a cinzas. Foi certamente a consequência de tantas (e tão boas) tentativas. Oxalá consiga continuar assim.


PS: Antonio, este vem a propósito do teu Post sobre o regresso às aulas e a tua matemática (ou previsibilidade) das notas... o meu prognóstico (mesmo que ainda não seja o fim do jogo) é de que te vão sair mais 5 do que aqueles que tu imaginas. Para isso só tens de aplicar a máxima do teu avô Alipio: tentas... se não conseguires, logo pensas no que fazes a seguir. Comigo tem dado MUITO resultado...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

As eleições no UruguaY


Estou no Uruguai.
À semelhança de Portugal, também aqui só se fala de eleições: em Outubro há Presidenciais e em Novembro autarquicas. Andamos mano a mano com a história dos locais. O candidato de esquerda nacional é aquele que mais hipóteses tem de ganhar as eleições. Possuidor de um eleitorado fiel, Pepe Mujica (incluo a foto - nem o photoshop o salva do ar de personagem de Senhor dos Aneis) é um homem do povo, que fala como o povo e com quem este se identifica. Nos anos 70 foi lider revolucionário, colocou bombas, roubou bancos e casinos, matou agentes da autoridade, tudo em nome de uma revolução anti regime politico (democraticamente) instalado. Quando lhe perguntam pelo seu passado e se este não pode "ofuscar" a sua eleição, diz que aquilo que fez (e que reconhece) eram coisas normais naqueles tempos. Tão normais e insignificantes que é muito provavel que seja ele a receber como Chefe de Estado a Carla Bruni ou a Michelle Obama nas suas próximas visitas a este pais...

Nós, à falta de bombas e roubos, gastamos rios de tinta e horas de telejornal a discutir porque é que um Ministro do Ambiente, na altura, teria recebido um grupo de empresários com problemas no licenciamento do seu projecto... Além de o acusarmos de falta de caracter porque usa indevidamente (dizem) o "Eng" antes do nome próprio no seu cartão de crédito... É uma questão de principios, moral e honestidade, dizem alguns.
Eu digo que ou é uma questão de caridade cristã (e os uruguaios têm-na) ou então algum efeito da diferença de Latitude... mas o que é certo é que, para nós - em Portugal, há "crimes" que não se perdoam. Nunca.