domingo, 18 de outubro de 2009

Leonor


Devias ter perto de 3 anos quando, numa minha visita a Lisboa, decidimos fazer um passeio especial. Com o António, o tio Ali e a tia Caia lá partimos, numa tarde de Verão, a explorar o Museu da criança em Belém. O Museu não era mais que uma série de salas sucessivas com diversos jogos e animação, nos quais tu tentavas participar activamente. Insistias em fazer tudo o que teu irmão fazia e reclamavas quando alguém te impedia por falta de idade ou tamanho. Não sei quem gostou mais da visita (se voces ou nós os adultos) mas o que é certo é que chegámos ao fim sãos e salvos e o teu irmão com uns bigodes e barbicha. Nesta ocasião recusaste-te a que alguém te pusesse a mão para pintar uma borboleta na cara, ameaçando chorar a altos berros caso insistissem...


Saimos do museu e fomos directos para os jardins do CCB, aquele edificio que a voces certamente pareceu enorme e deserto. Antes do gelado e das Coca Colas, fartei-me de tirar fotografias vossas deitados na relva, com poses de modelo, ora sorrindo para a câmara ora fazendo cara de maus... porque as fotografias "normais" não têm graça nenhuma, certo?


Acabámos o "lanche" e, como já se fazia tarde e tinhamos ultrapassado o horário imposto para o regresso, decidimos levar-vos a casa. Nesse momento, não me perguntes porque, achaste que era hora de fazer uma birra em pleno pátio central do CCB... Escandalo? Não! Nem gritos nem alarde... simplesmente viraste as costas e foste embora no sentido oposto àquele onde estava o carro. Braços a abanar, cabeça coberta por um enorme chapéu azul e só vimos como te afastavas cada vez mais. Traçaste uma linha recta rumo ao infinito e nós ficámos à espera para ver quando paravas ou olhavas para trás. A tua figura diminuta, de mini saia azul às flores e t-shirt rosa, parecia cada vez menor à medida que caminhavas. Esperámos e nada... não te voltaste uma unica vez.


Nessa altura, furioso com a desobediência, fui a correr atrás de ti para te forçar a vir pelo bom caminho. Cheguei ao teu lado disposto a aplicar o meu poder de tio quando finalmente paraste, com uma cara que desarmaria até o mais decidido. Não consegui senão esboçar um sorriso e tirar-te uma ultima fotografia. Percebi naquela altura, e ainda hoje acredito, que não tinha sido o acaso a dar-te nome de Rainha.


Podem passar 100 anos que esta história será sempre a "tua" história comigo. Quanto à fotografia, tirei-a hoje da moldura que a guarda, no meu escritório, para a partilhar aqui contigo. É ela que, dia a dia, me faz companhia e me lembra, se é que é possivel esquecer, que serás sempre grande. Grande como uma Rainha, Leonor.



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

As livrarias


El Ateneo é uma das melhores livrarias de Buenos Aires e provavelmente uma das mais conhecidas do mundo. Está instalada no antigo Teatro Gran Splendid, edifico inaugurado em 1919. Em 2000, tansformaram-no numa Livraria, mantendo porém muitas das suas caracteristicas de Teatro.


Onde antes estava a plateia estão agora corredores e prateleiras cobertas de livros. Os camarotes mantêm ainda parte da sua estrutura e lá dentro estão confortaveis sofás onde se pode ler algumas das obras à venda; O palco foi transformado em café da livraria e possui um enorme piano onde todas as tarde se ouvem clássicos argentinos; e o foyer de entrada no Teatro está agora repleto de caixas registradoras e as ultimas edições argentinas ou estrangeiras.


O lugar manteve o piso em alcatifa vermelha, as paredes em dourado e os cortinados em veludo pesado. Todos os frescos da magnifica cupula do salão principal foram recuperados e a sensação que temos é a de que, a qualquer momento, as luzes vão descer de intensidade e a peça vai começar.


Lembrei-me de ir ao Ateneo ver se encontrava alguns livros ou cds e também porque, segundo noticias que vi num jornal antigo, o Ateneo tinha sido considerado pelo "The Guardian" como a 2ª mais impressionante livraria do Mundo. Que melhor motivo para rever aquele edificio?


Depois de umas breves compras, à saida vejo o tal ranking onde constava, em destaque, o "meu" Ateneo. O espanto é que aquela mesma tabela, depois do Ateneo e de uma qualquer igreja em Mastricht, indica que a 3ª livraria mais maravilhosa do Mundo está, nada mais nada menos, que no Porto... Isso mesmo, aquela cidade no norte de Portugal. Trata-se da Livraria Lello, uma das mais antigas do país e um exemplar único nesta coisa da arquitectura das Livrarias. Fiquei alguns minutos parado sentindo-me a pessoa mais ignorante do mundo por nunca lá ter ido ou sequer ouvido falar da sua existência. Claro que isso passou depressa: Saí com um orgulho imenso e uma vontade única de dizer a todos que a seguinte da lista se encontrava no meu país. Enfim... próxima visita ao Porto lá estarei.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

El Refugio


Bariloche fica a duas horas e meia de Buenos Aires, em plena Patagonia Argentina. Quando chegamos impressiona a paisagem lunar, a terra vermelha e os arbustos secos pelo vento frio que desce das montanhas. Com as planicies convivem picos cobertos de gelo e lagos cor cinza. Estamos no principal destino de neve da América do Sul, uma espécie de Suiça num Continente que nos habituámos a ver como exclusivamente quente e à beira mar.


Mal chegamos ao hotel (23 quartos que dão directamente para o lago Gutierrez, uma porção de água emoldurada por duas montanhas nas quais se instala um por do sol encomendado) fomos informados que tinhamos de sair de imediato para o jantar. Este seria no topo de uma montanha onde tinhamos de chegar antes da noite cerrar. O local chama-se, muito apropriadamente, "El refugio" e a ele só chegámos graças aos esforços de um todo terreno que teimosamente subiu os 1000 metros de altura que nos separavam do sopé da montanha.


Os 4 graus negativos que se faziam sentir obrigaram-nos a avançar velozmente para o interior de algo que parecia uma cabana de montanha, iluminada apenas por uma fraca lampada de exterior. Com a noite a cair e rodeada por árvores esta casa parecia o cenário de um filme do Walt Disney. Ao entrar, e depois de descer 3 degraus de pedra, percebi que aquele não era um lugar qualquer. A estrutura de troncos de madeira e pedras contrastava com o outro extremo da cabana, totalmente coberto de vidros compondo uma janela gigante. Estávamos no cimo de uma falésia de onde podiamos ver o anoitecer sobre Bariloche, as suas montanhas brancas, os lagos e as casas sendo lentamente iluminadas.


O refugio é uma cabana adaptada a restaurante e em que a rainha da festa é uma lareira gigante onde arde um fogo há muito preparado. Além da luz quente que daqui emana a unica iluminação é a de dezenas (DEZENAS!!!) de velas espalhadas um pouco por todo o lado, desde as prateleiras do bar até as mesas de jantar. É uma obra de arquitectura que surpreende pelos materiais usados e, sobretudo, pelo excelente aproveitamento do espaço e das vistas.


Contam-nos então que aquele projecto foi o trabalho árduo de um artesão local que, durante anos, subiu aquele percurso com o intuito de descobrir a melhor forma de tirar proveito do local, dos materiais, da paisagem.. procurou o melhor posicionamento e planeou até ao detalhe como transformar aquele lugar num miradouro único e especial. Durante anos planeou e depois trabalhou naquele que é um dos projectos de arquitectura mais fantásticos que já vi.


No seu ultimo dia de obra, quando o espaço estava pronto e só faltava estrear, o mesmo artesão que com tanto afinco aqui trabalhou, faleceu vitima de um ataque cardiaco durante a habitual viagem de regresso à aldeia. Disseram os nossos anfitriões que a voz corrente na aldeia era a de que para ele e depois daquela obra, nenhuma outra faria sentido. Ficámos admirando ainda mais o trabalho de uma vida. O primeiro brinde, quando conseguimos quebrar o silêncio, foi em sua honra.

domingo, 4 de outubro de 2009

La Negra

Acabo de chegar a Buenos Aires e a primeira noticia que vejo nas televisões do aeroporto é que morreu a Mercedes Sosa.. Grandes chamadas de atenção para aquele que será, certamente, um dia negro para a maioria dos Argentinos. Mercedes Sosa era uma espécie de Amália das Pampas pelo que é fácil imaginar a comoção popular que a sua morte provoca. Foi uma cantora popular, folclórica, mas com uma voz inigualavel. Tão inigualavel que não há vez nenhuma que eu venha a Buenos Aires que não procure o seu CD mais recente para levar para Lisboa.

Vi-a ao vivo no Teatro Colon, em 2004 e em Buenos Aires, acompanhada por uma Orquesta Sinfonica e diversos convidados. Foi um espectaculo fantástico em que a voz de "la negra" (voz de contralto), habituada às canções de protesto e às militâncias de esquerda, estava desta vez acompanhada pelo elitismo de uma orquesta completa. A distribuição da orquesta era a habitual e sobresaia a figura sentada no centro daquele palco gigantesco, vestida de preto com um xaile vermelho, tão vermelho que rivalizava com os pesados e enormes cortinados de veludo do Colon.

Impressionante era ver o publico de um dos mais conhecidos teatros da América, rendido, a aplaudir de pé a maior cantora argentina. Provavelmente o mesmo publico que agora, já perto das 23H00 aqui em Buenos Aires, espera pacientemente à porta do lugar onde o seu corpo está em camara ardente para prestar-lhe a ultima homenagem. Enquanto isso, na televisão, transmitem extractos de concertos com algumas das musicas que a tornaram popular.

Por mim, a unica homenagem de que me lembro é amanha tentar comprar mais alguns CDs da Mercedes Sosa. Será certamente uma maneira fantástica de relembrar aquele concerto de 2004.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pardalinha







"Amo-te Pardalinha" deve ter sido das melhores mensagens que já vi grafitadas nas paredes de Lisboa. Dei com ela no outro dia, à beira Tejo e imediatamente esbocei um sorriso pensado no orgulho de quem afirma, de uma forma tão duradoura, a admiração pela avezinha da sua vida (que também pode ser a vergonha de quem vê exposto o carinhoso nome que lhe deram... neste caso por um tal de Crespo).


O que é certo é que serviu para lembrar-me de uma série de casais que conheço ou conheci que se dão (ou, em alguns casos, davam) mutuamente os nomes mais estranhos.

A começar por uns primos do meu pai (a Eva e o Desidério) que sempre se trataram por "velhinha" e "velhinho". Era um sinal de amor mas convenhamos que um pouco decadente. Um amigo meu trata a mulher por "Andrezinho" (!) ou "Bambam" e um outro primo, também ele já com uma certa idade, tratava a companheira dos ultimos (muitos) anos por "Bezugo". Ou ainda, em ataque meloso de paixão, por "Bezuguinho"... Não é uma visão bonita mas o certo é que ali até rimava.


Depois temos a Tia Nocha que trata o marido por "Picho" ou "Pichinho", um ex colega de trabalho que tratava a mulher por "fofinha" (ela não era nada gorda) e um amigo de infância a quem a mãe e as irmãs tratavam por "cookie"... acho que ainda tratam.


O meu pai tratava a minha mãe por Carpia, como legitima descendente da Carpissa. Aliás, todos os meus tios espanhois tratavam as mulheres assim. Isto, contudo, era mais por provocação... é que a Carpissa ficou conhecida por ser uma mulher determinada (ou teimosa) e temperamental (ou com mau feitio) e qualquer associação com esta era mal interpretada pelo lado feminino da minha familia materna.

Há ainda a "Kikolita", o "Wally", o "Chancho" e a "Popota" ou "Popotinha"... Tudo nomes fantásticos, nada fáceis de soletrar, mas que poderiam perfeitamente estar estampados numa qualquer parede de Lisboa, acompanhados também eles de um coração vermelho gigante.


Quanto à Pardalinha, não faço a minima ideia se será assim tão amada quanto indica o Grafitti e se o nome vai durar muito mais tempo. O que sim sei é que, se tiver 10% do sucesso que estes tiveram e durar o tempo que duraram, já não é nada mau.

PS: Os Graffitis da Pardalinha e do Crespo estendem-se por uma série de paredes desde Algés até Alcantara e sempre com vista para o Tejo... 4 Km de manifestações únicas. Agora sim tenho certeza que a Pardalinha viverá para sempre feliz com o seu Crespo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sr Branco



O senhor Branco é o colaborador mais velho da empresa onde trabalho. Tem mais de 90 anos e foi, durante a maior parte da sua vida, funcionário interno do Marques de Valle Flor, antigo proprietário do Palácio com o mesmo nome.


Durante a obra de transformação e recuperação do edificio (que durou 10 anos) o Sr Branco era presença habitual no estaleiro de obra, controlando o que faziam os engenheiros e confirmando que o futuro espaço ficaria próximo daquilo que era antigamente.


Terminada a obra foi proposto ao Sr Branco (na altura já com oitentas) continuar a trabalhar no Hotel. As suas funções seriam apenas e tão só receber e despedir os hóspedes ou visitantes no acesso principal do Palácio. Mandaram fazer uma espécie de fraque bordeaux e cinzento com um chapéu de coco da mesma cor e desde essa altura, seja Verão ou Inverno, o Sr Branco está diáriamente à porta cumprimentando todos quantos entram ou saem com uma inclinação de cabeça e pequeno toque no chapéu.


É um mixto de simpático avô e elegante marquês, com o seu cabelo branco, olhos rasgados pela idade e sorriso franco e pronto.


Sempre que saio do hotel baixo o vidro do carro, desejo-lhe boa noite e de volta recebo um "muito obrigado e até amanhã". Há dias em que a conversa se prolonga mais (sobre o tempo - que para ele está sempre óptimo! - a ocupação do hotel - cada vez mais cheio! - ou o movimento da rua - sempre calma e agradavel!).
Ontem à noite, porem, havia um assunto diferente. Quando acabei o trabalho senti um cheiro intenso a queimado misturado com a humidade no ar. Ao sair, depois do tradicional boa noite e respectiva vénia, perguntei ao Sr Branco de onde vinha aquele cheiro. "Cheiro a queimado?" perguntou ele surpreendido e olhando para os lados. "Não sinto cheiro nenhum..." afirmou então. Ainda insisti mas a resposta foi a mesma, dada com o sorriso de sempre e ainda a segurar o chapéu com as duas mãos.


Fui-me embora resignado, sem decifrar o enigma do cheiro mas sorrindo por ter percebido a estratégia do Sr Branco: faça chuva ou faça sol, cheire a flores ou a queimado, a vida à porta daquele hotel tem de ser sempre fantástica e positiva. É esse o papel do actor principal deste filme e ele desempenha-o na perfeição. Ou não será aqui que começa a magia de um 5 estrelas?