
O senhor Branco é o colaborador mais velho da empresa onde trabalho. Tem mais de 90 anos e foi, durante a maior parte da sua vida, funcionário interno do Marques de Valle Flor, antigo proprietário do Palácio com o mesmo nome.
Durante a obra de transformação e recuperação do edificio (que durou 10 anos) o Sr Branco era presença habitual no estaleiro de obra, controlando o que faziam os engenheiros e confirmando que o futuro espaço ficaria próximo daquilo que era antigamente.
Terminada a obra foi proposto ao Sr Branco (na altura já com oitentas) continuar a trabalhar no Hotel. As suas funções seriam apenas e tão só receber e despedir os hóspedes ou visitantes no acesso principal do Palácio. Mandaram fazer uma espécie de fraque bordeaux e cinzento com um chapéu de coco da mesma cor e desde essa altura, seja Verão ou Inverno, o Sr Branco está diáriamente à porta cumprimentando todos quantos entram ou saem com uma inclinação de cabeça e pequeno toque no chapéu.
É um mixto de simpático avô e elegante marquês, com o seu cabelo branco, olhos rasgados pela idade e sorriso franco e pronto.
Sempre que saio do hotel baixo o vidro do carro, desejo-lhe boa noite e de volta recebo um "muito obrigado e até amanhã". Há dias em que a conversa se prolonga mais (sobre o tempo - que para ele está sempre óptimo! - a ocupação do hotel - cada vez mais cheio! - ou o movimento da rua - sempre calma e agradavel!).
Ontem à noite, porem, havia um assunto diferente. Quando acabei o trabalho senti um cheiro intenso a queimado misturado com a humidade no ar. Ao sair, depois do tradicional boa noite e respectiva vénia, perguntei ao Sr Branco de onde vinha aquele cheiro. "Cheiro a queimado?" perguntou ele surpreendido e olhando para os lados. "Não sinto cheiro nenhum..." afirmou então. Ainda insisti mas a resposta foi a mesma, dada com o sorriso de sempre e ainda a segurar o chapéu com as duas mãos.
Fui-me embora resignado, sem decifrar o enigma do cheiro mas sorrindo por ter percebido a estratégia do Sr Branco: faça chuva ou faça sol, cheire a flores ou a queimado, a vida à porta daquele hotel tem de ser sempre fantástica e positiva. É esse o papel do actor principal deste filme e ele desempenha-o na perfeição. Ou não será aqui que começa a magia de um 5 estrelas?
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