domingo, 9 de maio de 2010

Gladys & George

Gladys e George Hawkins eram o típico casal inglês de meia idade. Reformados, viviam numa casa térrea forrada a tijolo, numa qualquer aldeia perto de Londres. A esta só iam se e quando estritamente necessário. O barulho e caos da grande metrópole contrastava com a sua verdadeira paixão: as flores. No pequeno jardim de casa cultivavam todo o tipo de espécies, muitas delas provenientes das viagens que faziam.


Um qualquer Operador turístico levou-os, a meados dos anos 70, a uma ilha reconhecida pelos Ingleses graças ao verde das montanhas e ao colorido das flores nos jardins. A Madeira tornava-se, assim, parte da vida daquele casal.


O que ao inicio era apenas mais um destino de férias pronto se tornou um hábito e Gladys e George rapidamente se tornaram visitas frequentes das Levadas da Madeira. Vinham duas a três vezes por ano, ficavam sempre no centro do Funchal (na residencial Colombo) e dedicavam os seus dias a conhecer, melhor que muitos madeirenses, cada canto da Ilha.


Foi numa dessas viagens, no inicio dos anos 80, que ambos deram de caras com a minha família madeirense. Julgo que aconteceu num jantar (tinha pouco mais de 10 anos na altura) em que os Hawkins coincidiram numa mesa ao lado dos mais ruidosos e espalhafatosos personagens da família. Um pedido de desculpas pelo barulho provocado durante o jantar e a compreensão britânica de toda aquela alegria portuguesa, fez com que Gladys & George passam-se a ser, oficialmente e sem grande esforço, amigos de casa. Nessa mesma noite foram desviados para uma prova de vinho madeira acompanhado de bolo de mel, demonstração da melhor hospitalidade madeirense.


A partir dessa data, e ao longo de muitos anos, não havia visita à Madeira que não incluísse uma visita ao Alipio e à Chola, ao Emilio e Avelina, ao Desidério e Eva, os amigos madeirenses. Chegavam sempre sem avisar, invariavelmente carregados com tabletes de chocolate Cadburys para as crianças (um luxo para a época) e chás Earl Grey para a minha Avó Felicidade (a quem, gentilmente e apesar de próximos na idade, sempre trataram por “Granma”).


As conversações entre os Ingleses e os autóctones eram, a maior parte das vezes, traduzidas pelos mais novos, exercitando o que aprendíamos na Academia de Línguas da D. Gabriela. Mas a comunicação era fluida entre todos: a minha mãe era a única que lhes falava sem tradução e sempre em Espanhol enquanto o resto da família falava como podia, convertendo muitos dos termos ingleses num dialecto próprio. Quando havia impasse no diálogo à conta de uma palavra mais complicada, a mímica entrava a funcionar, acabando invariavelmente em sonoras gargalhadas. Gladys era a mais faladora enquanto George, com o seu magnífico bigode, óculos de massa e casaco de malha, se limitava a assentir divertido tudo o que a mulher dizia. A cara de Gladys só se contraía quando alguém perguntava a George se queria mais vinho Madeira e ele respondia “Yes… un poquito, thank you”…


Falavam da nossa Madeira de uma maneira única e especial, descreviam os seus passeios e descobertas com uma adoração que muitos de nós, apesar de madeirenses, não tínhamos. Assim passavam tardes inteiras, sentados na nossa sala, fora da natureza de que tanto gostavam mas visivelmente felizes por fazerem parte daquele confuso mas alegre grupo.


Os anos passaram e Gladys e George eram parte da família. Além das habituais visitas anuais, recebíamos postais de Natal que descreviam como estava a família Hawkins, noticias sempre acompanhadas por fotografias que mostravam as várias estações de um jardim, algures em Inglaterra, repleto de flores da sua Ilha favorita. Muitas vezes as cores do jardim contrastavam com as notícias duras que lá vinham. Foi assim que, ao longo dos anos, recebemos a notícia da morte de George, a da perda de um filho que vivia na Austrália e as noticias das sucessivas quedas, fracturas e operações de Gladys. Esta continuou a visitar a Madeira e a aparecer em nossa casa, como sempre, de surpresa.


Na passada semana, ao retirar alguns livros de caixotes, encontrei um em inglês sobre a flora da Madeira. Ilustrado com umas aguarelas de paisagens da Ilha, dentro do livro estava também um bilhete manuscrito. Reconheci de imediato a letra dos postais que, tantas vezes e em voz alta, traduzi à família. Dizia que aquele livro tinha sido comprado na sua primeira visita à Madeira, que estava com ela desde essa altura e queria que agora estivesse comigo: eu certamente daria mais valor ao livro que algum familiar próximo que o recebesse em herança. Voltei a dobrar o bilhete, coloquei-o dentro do livro e arrumei-o na estante. Lembrei-me então de o ter recebido alguns anos atrás, por correio, em casa dos meus pais.


A “herança” de Gladys Hawkins está finalmente a descoberto e no lugar certo. Sorri ao pensar naquele simples toque de campainha que precedeu tantas visitas dos Hawkins à sua família madeirense: Em resposta ao habitual “quem é” recebíamos um feliz e sonoro GLADISSS! em impecável sotaque inglês… com entoação espanhola.





sábado, 8 de maio de 2010

Os Ratings

Três dias antes da falência do Lehman Brothers e AIG, o rating que lhes era atribuido pelas magnificas Moody´s, Standard & Poor´s e Fitch (as mesmas que agora nos colocam debaixo de água), era de AAA... 3 dias antes... alguém ainda confia nestes senhores de fatos às riscas? Pior, como não foram despedidos naquela altura, continuam a mandar palpites sobre as economias de paises e a descer os "ratings" sempre que lhes apetece... e nós, não lhes podemos descer o rating a eles??

"Analysts at the three biggest credit rating agencies who gave positive, investment-grade ratings to AIG and Lehman Brothers up until their collapse have not been fired or disciplined, the heads of the agencies admitted at a Congressional hearing today.
Moody's, Standard & Poor's, and Fitch Ratings all maintained at least A ratings on AIG and Lehman Brothers up until mid-September of last year. Lehman Brothers declared bankruptcy Sept. 15; the federal government provided AIG with its first of four multibillion-dollar bailouts the next day.
Under questioning by Rep. Jackie Speier (D-Calif.), Raymond W. McDaniel, Jr. of Moody's, Deven Sharma of S&P, and Stephen Joynt of Fitch said the analysts in charge of ratings for the now-disgraced firms are still employed.
The big three rating agencies have come under fire since the 2007 collapse in the subprime home mortgage market for issuing rosy ratings on a plethora of securities that are now considered to be junk. The Obama administration and Congress are exploring various reform proposals.
At the hearing today, the exchange between Speier and the agency chiefs was particularly contentious.
"You had rated AIG and Lehman Brothers as AAA, AA minutes before they were collapsing. After they did fail, did you take any action against those analysts who had rated them?" Speier asked. "Did you fire them? Did you suspend them? Did you take any actions against those who had put that kind of a remarkable grade on products that were junk?"
McDaniel answered first. "No, we did not fire any of the analysts involved in either AIG or Lehman," he replied."