
Entre uma reunião e o almoço decidimos que estar no Chile e não ver pelo menos uma das casas do Neruda seria um crime imperdoável. A casa do Prémio Nobel da Literatura em Santiago chama-se “La Chascona” e é, juntamente com a “La Sebastiana” e a casa de “Isla Negra”, uma das principais atracções turísticas do Chile.
A casa fica na Bella Vista, um tradicional e boémio bairro que convive e ainda preserva alguns dos seus casarões antigos e senhoriais, sobreviventes da febre do vidro e aço que ataca a cidade. Como sempre em Santiago as árvores ladeiam as ruas que nos levam a “La Chascona”. O nome está pendurado numa placa de metal por cima da porta de entrada da casa mas o acesso faz-se pelo jardim, com inicio numa pequena loja repleta de souvenirs de Neruda (desde aventais a ímanes de frigorifico) mas, sobretudo, de livros do poeta.
O ambiente é mágico e as frases de Neruda estão por todo o lado, lembrando-nos que uma palavra pode trazer 1000 imagens… “Te amo, beso en tu boca la alegria”, “mi vida esta hecha de todas las vidas”, “Podrán cortar todas las flores pero no podrán detener la Primavera”, “Debajo de tu piel vive la luna”…
A visita teve de ser adiada para o fim da tarde já que todos os grupos estavam preenchidos. Às 18H00 cabia-nos a honra de entrar na ultima visita guiada do dia pela casa do maior poeta do Chile, Prémio Nobel da Literatura em 1971, arquitecto nas horas vagas e coleccionador compulsivo.
Deixámos as frases e a calma da casa e voltámos ao rodopio de reuniões até que, pouco antes da hora marcada, zarpámos de novo para La Chascona. Só que o trânsito de Santiago não perdoa e quando lá chegámos, uns míseros 15 minutos atrasados, já a casa estava fechada… Batemos a todas as portas, tocámos campainhas na esperança que alguém abrisse e nos deixasse entrar ou ao menos espreitar. Apareceu uma das últimas guias que lá explicou que, como não tínhamos aparecido, a nossa hospedeira na La Chascona se tinha ido embora mais cedo…
Nessa altura já estávamos no jardim da casa e percebemos que tinha sido construída numa espécie de morro, cheio de vegetação, curiosamente distribuída em diversos patamares ao qual se acedia por meio do jardim. À esquerda estava a sala de estar, à direita um outro espaço com a cozinha, mais acima dois outros quartos. Pedimos encarecidamente que nos deixasse só dar uma volta pelo jardim, ver os espaços desde fora, cheirar o ambiente… devemos ter sido tão convincentes que nos acompanhou até à biblioteca onde um outro grupo estava já a acabar a visita.
Naquele espaço, no topo da casa e camuflado pelas árvores e plantas que ali cresceram nestes anos, Neruda guardava parte da sua gigantesca colecção de livros. Infelizmente as prateleiras outrora repletas mostram agora apenas alguns exemplares: Gonçalo, o guia, diz-nos que o poeta da liberdade morreu de tristeza 10 dias depois do golpe de estado que destituiu o seu amigo Allende e deu inicio a um regime ditatorial. No dia seguinte ao da sua morte, adeptos do novo regime invadiram a casa e destruíram a maior parte de um património incalculável. A casa que ele próprio concebeu e desenhou alberga hoje apenas algumas peças que sobreviveram à fúria de quem sempre o considerou uma ameaça à segurança nacional…
Mas a verdadeira história desta viagem foi quando perguntei ao Gonçalo se ele sabia que Neruda tinha sido Padrinho de um dos filhos do Jorge Amado. Espantado por eu conhecer o episódio (expliquei-lhe que era impossível viver quatro anos na Bahia e não conhecer a vida dos Amado…) contou-me que essa era uma das histórias mais divertidas de Neruda: O Chileno foi Padrinho de baptismo do filho mais velho do seu amigo Bahiano. Quando nasceu Paloma, Jorge Amado convidou-o novamente para Padrinho da filha já que a amizade era imensa. Só que Carybé, pintor e outro grande amigo da família, já tinha sido convidado. Neste impasse a coisa resolveu-se assumindo Neruda… o papel de “madrinha” da filha de Jorge Amado.
Esta e todas as outras histórias de Neruda contadas a correr fizeram com que a visita valesse muito a pena. Tanto que ficou uma vontade imensa de voltar. Talvez na próxima viagem…