sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Estrela Francisca









Foste a terceira a nascer. Num 28 de Novembro, pouco depois da meia noite, resolveste que já era hora de quebrar o suspense e fazer a tua primeira aparição.
Confesso que não me lembro onde estava eu nessa noite. Presumo que no Funchal, pronto para vir a Lisboa conhecer este novo elemento, mas isso pouca importância tem agora. O que sim importa é que estes 9 anos foram cheios de aniversários, almoços, jantares, baptizados, férias no Algarve, natais em família e festa. Muita festa.

Entre tanta animação sempre foram dizendo que éramos parecidos. “tal tio, tal sobrinha” é ainda frase corrente, pelos mais variados motivos: um dia são os olhos, no outro o cabelo (isto de ter caracóis em família de cabelo escorrido coloca-nos sempre no mesmo saco) e às vezes a teimosia (acho uma injustiça fazer esta comparação considerando que o meu caso era bem mais grave: batia com a cabeça no chão até conseguir o que queria… ou acabava com vultos na testa dignos de um personagem do Frankenstein!). Claro que tudo isso até pode ser verdade mas, da minha parte, continuo a achar que o segredo está no palco e na festa. Ou alguém vai negar que tu e eu somos imbatíveis neste campo?

Mais: considerando que eu já te levo uma vantagem de vulto (30 anos… exactos), diria que o teu futuro neste sector é bem mais brilhante. Tanto que hoje, nove anos passados e olhando um pouco para trás, tenho a certeza que tu não nasceste… estreaste! E quem se estreia desta forma não pode nunca sair de cena já que os papéis principais são para pessoas como tu.
Só por isso já acho que vivo cheio de sorte: vou estar aqui para acompanhar, ver e aplaudir. Ou não é esse o papel dos admiradores?
Parabéns Kika!!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O muro





Passaram 20 anos desde que o muro de Berlim caiu. Caiu não, foi derrubado, que cair parece coisa do acaso e não obra de muitos. Revi na televisão as imagens de então, as pessoas em cima do muro, a invasão das fronteiras e todos aqueles festejos que a mim, com 19 anos e perdido numa ilha no meio do Oceano, me pareciam tão longe e irreais.


A felicidade alheia era tão forte que obviamente também eu fiquei feliz. Desde essa altura ficou a curiosidade em ver como seria Berlim, a separada e a agora junta. Isso só aconteceu em 1995, 6 anos depois. Cheguei à cidade unificada para uma semana de férias (ou de visita de estudo, se preferirem) por conta do meu estágio na Comissão, em Bruxelas. Lembro-me como se fosse hoje a sensação de entrar na capital alemã, de autocarro e depois de uma longa viagem com outros 100 colegas de estágio, desembarcar precisamente na Porta de Brandenburgo e ter uma visão de autêntico estaleiro de obras com o maior número de guindastes imaginável. Berlim estava em obras e isso sentia-se por todo o lado. Seis anos depois da queda do muro os alemães construíam como uns loucos, prontos a recuperar o tempo perdido com uma divisão que lhes tinha sido imposta.


A cidade do muro, monumental e organizada, histórica e moderna (tinham acabado de construir a Praça Sony), rica e pobre, mostrava-se como a capital dos contrastes. Fervilhava de turistas, de eventos e de cultura, em parte porque um artista chamado Christo (na altura e para mim era só “um” artista…) decidira embrulhar o Parlamento Alemão. O Reichstag, símbolo da democracia, estava totalmente envolto como uma vulgar e tradicional encomenda de mercearia, com a excepção que aqui o papel pardo e cordel tinham dado lugar a uma lona cor prata e muitos metros de cabo de aço.


À noite juntávamo-nos a outras centenas de pessoas de todas as nacionalidades no relvado próximo do Parlamento e ficávamos horas a ouvir os mais diversos músicos de rua e ver o jogo de projecções que transformava o Reichstag num fogo de artificio de luz e cor. A melhor imagem de Berlim será sempre a da festa que todas as noites acontecia naquele local.
O meu primeiro encontro com o muro (ou pelo menos com a maior porção preservada), aconteceu depois de uma viagem de comboio e algum corta mato por um terreno baldio nos arrabaldes da cidade.


Encontrei uma parede de betão imensa, a perder de vista, coberta de graffitis (muitos sem qualquer nexo) e “guardada” por uma comunidade de Punks instalados em tendas e carros abandonados.


Festejámos o achado e todos recordámos as imagens que nos tinham chegado em 99. Naquele momento, à frente do maior pedaço de muro ainda de pé, a alegria do derrube era também nossa.

Encostei-me tentando perceber onde acabaria aquela linha quando dei com uma pequena frase mesmo ao nível dos meus olhos. Escrita a caneta de feltro e numa letra diminuta quando comparada com o tamanho do betão, algum português anónimo resolveu gritar ao mundo: “não há nada como mijar no muro". Mais do que a coincidência em ter encontrado algo no meu idioma na imensidão da parede, impressionou a simples constatação que ali estava.
Ainda consegui tirar uma fotografia antes que os guardiões punks nos expulsassem aos gritos do território ocupado. Tivesse tempo e, imbuído do espírito desordeiro, acrescentaria à já minha frase “Não há nada como mijar no muro…” algo como “ …que ele acaba por cair”. Ou não será esta a melhor maneira de lidar com os muros que ainda sobram neste mundo?


terça-feira, 17 de novembro de 2009

La Chascona





Entre uma reunião e o almoço decidimos que estar no Chile e não ver pelo menos uma das casas do Neruda seria um crime imperdoável. A casa do Prémio Nobel da Literatura em Santiago chama-se “La Chascona” e é, juntamente com a “La Sebastiana” e a casa de “Isla Negra”, uma das principais atracções turísticas do Chile.

A casa fica na Bella Vista, um tradicional e boémio bairro que convive e ainda preserva alguns dos seus casarões antigos e senhoriais, sobreviventes da febre do vidro e aço que ataca a cidade. Como sempre em Santiago as árvores ladeiam as ruas que nos levam a “La Chascona”. O nome está pendurado numa placa de metal por cima da porta de entrada da casa mas o acesso faz-se pelo jardim, com inicio numa pequena loja repleta de souvenirs de Neruda (desde aventais a ímanes de frigorifico) mas, sobretudo, de livros do poeta.

O ambiente é mágico e as frases de Neruda estão por todo o lado, lembrando-nos que uma palavra pode trazer 1000 imagens… “Te amo, beso en tu boca la alegria”, “mi vida esta hecha de todas las vidas”, “Podrán cortar todas las flores pero no podrán detener la Primavera”, “Debajo de tu piel vive la luna”…

A visita teve de ser adiada para o fim da tarde já que todos os grupos estavam preenchidos. Às 18H00 cabia-nos a honra de entrar na ultima visita guiada do dia pela casa do maior poeta do Chile, Prémio Nobel da Literatura em 1971, arquitecto nas horas vagas e coleccionador compulsivo.

Deixámos as frases e a calma da casa e voltámos ao rodopio de reuniões até que, pouco antes da hora marcada, zarpámos de novo para La Chascona. Só que o trânsito de Santiago não perdoa e quando lá chegámos, uns míseros 15 minutos atrasados, já a casa estava fechada… Batemos a todas as portas, tocámos campainhas na esperança que alguém abrisse e nos deixasse entrar ou ao menos espreitar. Apareceu uma das últimas guias que lá explicou que, como não tínhamos aparecido, a nossa hospedeira na La Chascona se tinha ido embora mais cedo…

Nessa altura já estávamos no jardim da casa e percebemos que tinha sido construída numa espécie de morro, cheio de vegetação, curiosamente distribuída em diversos patamares ao qual se acedia por meio do jardim. À esquerda estava a sala de estar, à direita um outro espaço com a cozinha, mais acima dois outros quartos. Pedimos encarecidamente que nos deixasse só dar uma volta pelo jardim, ver os espaços desde fora, cheirar o ambiente… devemos ter sido tão convincentes que nos acompanhou até à biblioteca onde um outro grupo estava já a acabar a visita.

Naquele espaço, no topo da casa e camuflado pelas árvores e plantas que ali cresceram nestes anos, Neruda guardava parte da sua gigantesca colecção de livros. Infelizmente as prateleiras outrora repletas mostram agora apenas alguns exemplares: Gonçalo, o guia, diz-nos que o poeta da liberdade morreu de tristeza 10 dias depois do golpe de estado que destituiu o seu amigo Allende e deu inicio a um regime ditatorial. No dia seguinte ao da sua morte, adeptos do novo regime invadiram a casa e destruíram a maior parte de um património incalculável. A casa que ele próprio concebeu e desenhou alberga hoje apenas algumas peças que sobreviveram à fúria de quem sempre o considerou uma ameaça à segurança nacional…

Mas a verdadeira história desta viagem foi quando perguntei ao Gonçalo se ele sabia que Neruda tinha sido Padrinho de um dos filhos do Jorge Amado. Espantado por eu conhecer o episódio (expliquei-lhe que era impossível viver quatro anos na Bahia e não conhecer a vida dos Amado…) contou-me que essa era uma das histórias mais divertidas de Neruda: O Chileno foi Padrinho de baptismo do filho mais velho do seu amigo Bahiano. Quando nasceu Paloma, Jorge Amado convidou-o novamente para Padrinho da filha já que a amizade era imensa. Só que Carybé, pintor e outro grande amigo da família, já tinha sido convidado. Neste impasse a coisa resolveu-se assumindo Neruda… o papel de “madrinha” da filha de Jorge Amado.

Esta e todas as outras histórias de Neruda contadas a correr fizeram com que a visita valesse muito a pena. Tanto que ficou uma vontade imensa de voltar. Talvez na próxima viagem…

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Santiago





Chegar a Santiago do Chile é uma emoção. No sopé dos Andes encontramos uma cidade única, moderna, segura, repleta de arranha céus, jardins, passeios amplos e limpos. Tudo impecável, bem desenhado, novo, mais próximo de algumas cidades europeias (talvez mesmo alemãs) que da América do Sul.

Os 6 milhões de habitantes de Santiago (1/3 do total da população) andam com prazer pelas ruas e, ao fim da tarde, enchem os parques, as veredas e os passeios à beira rio. Apesar das torres de escritórios e apartamentos com as suas fachadas em vidro (que rivalizam com os picos dos andes cobertos de neve), Santiago é uma cidade verde. Não há avenida que não tenha uma fileira de árvores nem passeios sem um canteiro de rosas (sim, rosas…). As varandas dos edifícios (nenhuma delas com marquise) estão repletas com plantas de todos os tipos, sobretudo buganvillias, dando à linha do horizonte da cidade um ar próximo ao dos jardins suspensos da Babilónia.
Percebemos que os Chilenos são um exemplo de determinação e organização, atentos aos detalhes e com uma noção de qualidade de vida que surpreende todos quantos aqui chegam.
Ninguém é indeferente ao facto da organização ser algo de intrínseco à vida deste país. Tanto, que o próprio lema que consta da bandeira é “Ordem e Pátria”… Nada melhor que passear por Santiago para ver como os Chilenos não deixam esse principio cair em saco roto.