
Passaram 20 anos desde que o muro de Berlim caiu. Caiu não, foi derrubado, que cair parece coisa do acaso e não obra de muitos. Revi na televisão as imagens de então, as pessoas em cima do muro, a invasão das fronteiras e todos aqueles festejos que a mim, com 19 anos e perdido numa ilha no meio do Oceano, me pareciam tão longe e irreais.
A felicidade alheia era tão forte que obviamente também eu fiquei feliz. Desde essa altura ficou a curiosidade em ver como seria Berlim, a separada e a agora junta. Isso só aconteceu em 1995, 6 anos depois. Cheguei à cidade unificada para uma semana de férias (ou de visita de estudo, se preferirem) por conta do meu estágio na Comissão, em Bruxelas. Lembro-me como se fosse hoje a sensação de entrar na capital alemã, de autocarro e depois de uma longa viagem com outros 100 colegas de estágio, desembarcar precisamente na Porta de Brandenburgo e ter uma visão de autêntico estaleiro de obras com o maior número de guindastes imaginável. Berlim estava em obras e isso sentia-se por todo o lado. Seis anos depois da queda do muro os alemães construíam como uns loucos, prontos a recuperar o tempo perdido com uma divisão que lhes tinha sido imposta.
A cidade do muro, monumental e organizada, histórica e moderna (tinham acabado de construir a Praça Sony), rica e pobre, mostrava-se como a capital dos contrastes. Fervilhava de turistas, de eventos e de cultura, em parte porque um artista chamado Christo (na altura e para mim era só “um” artista…) decidira embrulhar o Parlamento Alemão. O Reichstag, símbolo da democracia, estava totalmente envolto como uma vulgar e tradicional encomenda de mercearia, com a excepção que aqui o papel pardo e cordel tinham dado lugar a uma lona cor prata e muitos metros de cabo de aço.
À noite juntávamo-nos a outras centenas de pessoas de todas as nacionalidades no relvado próximo do Parlamento e ficávamos horas a ouvir os mais diversos músicos de rua e ver o jogo de projecções que transformava o Reichstag num fogo de artificio de luz e cor. A melhor imagem de Berlim será sempre a da festa que todas as noites acontecia naquele local.
O meu primeiro encontro com o muro (ou pelo menos com a maior porção preservada), aconteceu depois de uma viagem de comboio e algum corta mato por um terreno baldio nos arrabaldes da cidade.
Encontrei uma parede de betão imensa, a perder de vista, coberta de graffitis (muitos sem qualquer nexo) e “guardada” por uma comunidade de Punks instalados em tendas e carros abandonados.
Festejámos o achado e todos recordámos as imagens que nos tinham chegado em 99. Naquele momento, à frente do maior pedaço de muro ainda de pé, a alegria do derrube era também nossa.
Encostei-me tentando perceber onde acabaria aquela linha quando dei com uma pequena frase mesmo ao nível dos meus olhos. Escrita a caneta de feltro e numa letra diminuta quando comparada com o tamanho do betão, algum português anónimo resolveu gritar ao mundo: “não há nada como mijar no muro". Mais do que a coincidência em ter encontrado algo no meu idioma na imensidão da parede, impressionou a simples constatação que ali estava.
Ainda consegui tirar uma fotografia antes que os guardiões punks nos expulsassem aos gritos do território ocupado. Tivesse tempo e, imbuído do espírito desordeiro, acrescentaria à já minha frase “Não há nada como mijar no muro…” algo como “ …que ele acaba por cair”. Ou não será esta a melhor maneira de lidar com os muros que ainda sobram neste mundo?

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