Um qualquer Operador turístico levou-os, a meados dos anos 70, a uma ilha reconhecida pelos Ingleses graças ao verde das montanhas e ao colorido das flores nos jardins. A Madeira tornava-se, assim, parte da vida daquele casal.
O que ao inicio era apenas mais um destino de férias pronto se tornou um hábito e Gladys e George rapidamente se tornaram visitas frequentes das Levadas da Madeira. Vinham duas a três vezes por ano, ficavam sempre no centro do Funchal (na residencial Colombo) e dedicavam os seus dias a conhecer, melhor que muitos madeirenses, cada canto da Ilha.
Foi numa dessas viagens, no inicio dos anos 80, que ambos deram de caras com a minha família madeirense. Julgo que aconteceu num jantar (tinha pouco mais de 10 anos na altura) em que os Hawkins coincidiram numa mesa ao lado dos mais ruidosos e espalhafatosos personagens da família. Um pedido de desculpas pelo barulho provocado durante o jantar e a compreensão britânica de toda aquela alegria portuguesa, fez com que Gladys & George passam-se a ser, oficialmente e sem grande esforço, amigos de casa. Nessa mesma noite foram desviados para uma prova de vinho madeira acompanhado de bolo de mel, demonstração da melhor hospitalidade madeirense.
A partir dessa data, e ao longo de muitos anos, não havia visita à Madeira que não incluísse uma visita ao Alipio e à Chola, ao Emilio e Avelina, ao Desidério e Eva, os amigos madeirenses. Chegavam sempre sem avisar, invariavelmente carregados com tabletes de chocolate Cadburys para as crianças (um luxo para a época) e chás Earl Grey para a minha Avó Felicidade (a quem, gentilmente e apesar de próximos na idade, sempre trataram por “Granma”).
As conversações entre os Ingleses e os autóctones eram, a maior parte das vezes, traduzidas pelos mais novos, exercitando o que aprendíamos na Academia de Línguas da D. Gabriela. Mas a comunicação era fluida entre todos: a minha mãe era a única que lhes falava sem tradução e sempre em Espanhol enquanto o resto da família falava como podia, convertendo muitos dos termos ingleses num dialecto próprio. Quando havia impasse no diálogo à conta de uma palavra mais complicada, a mímica entrava a funcionar, acabando invariavelmente em sonoras gargalhadas. Gladys era a mais faladora enquanto George, com o seu magnífico bigode, óculos de massa e casaco de malha, se limitava a assentir divertido tudo o que a mulher dizia. A cara de Gladys só se contraía quando alguém perguntava a George se queria mais vinho Madeira e ele respondia “Yes… un poquito, thank you”…
Falavam da nossa Madeira de uma maneira única e especial, descreviam os seus passeios e descobertas com uma adoração que muitos de nós, apesar de madeirenses, não tínhamos. Assim passavam tardes inteiras, sentados na nossa sala, fora da natureza de que tanto gostavam mas visivelmente felizes por fazerem parte daquele confuso mas alegre grupo.
Os anos passaram e Gladys e George eram parte da família. Além das habituais visitas anuais, recebíamos postais de Natal que descreviam como estava a família Hawkins, noticias sempre acompanhadas por fotografias que mostravam as várias estações de um jardim, algures em Inglaterra, repleto de flores da sua Ilha favorita. Muitas vezes as cores do jardim contrastavam com as notícias duras que lá vinham. Foi assim que, ao longo dos anos, recebemos a notícia da morte de George, a da perda de um filho que vivia na Austrália e as noticias das sucessivas quedas, fracturas e operações de Gladys. Esta continuou a visitar a Madeira e a aparecer em nossa casa, como sempre, de surpresa.
Na passada semana, ao retirar alguns livros de caixotes, encontrei um em inglês sobre a flora da Madeira. Ilustrado com umas aguarelas de paisagens da Ilha, dentro do livro estava também um bilhete manuscrito. Reconheci de imediato a letra dos postais que, tantas vezes e em voz alta, traduzi à família. Dizia que aquele livro tinha sido comprado na sua primeira visita à Madeira, que estava com ela desde essa altura e queria que agora estivesse comigo: eu certamente daria mais valor ao livro que algum familiar próximo que o recebesse em herança. Voltei a dobrar o bilhete, coloquei-o dentro do livro e arrumei-o na estante. Lembrei-me então de o ter recebido alguns anos atrás, por correio, em casa dos meus pais.
A “herança” de Gladys Hawkins está finalmente a descoberto e no lugar certo. Sorri ao pensar naquele simples toque de campainha que precedeu tantas visitas dos Hawkins à sua família madeirense: Em resposta ao habitual “quem é” recebíamos um feliz e sonoro GLADISSS! em impecável sotaque inglês… com entoação espanhola.

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