
Bariloche fica a duas horas e meia de Buenos Aires, em plena Patagonia Argentina. Quando chegamos impressiona a paisagem lunar, a terra vermelha e os arbustos secos pelo vento frio que desce das montanhas. Com as planicies convivem picos cobertos de gelo e lagos cor cinza. Estamos no principal destino de neve da América do Sul, uma espécie de Suiça num Continente que nos habituámos a ver como exclusivamente quente e à beira mar.
Mal chegamos ao hotel (23 quartos que dão directamente para o lago Gutierrez, uma porção de água emoldurada por duas montanhas nas quais se instala um por do sol encomendado) fomos informados que tinhamos de sair de imediato para o jantar. Este seria no topo de uma montanha onde tinhamos de chegar antes da noite cerrar. O local chama-se, muito apropriadamente, "El refugio" e a ele só chegámos graças aos esforços de um todo terreno que teimosamente subiu os 1000 metros de altura que nos separavam do sopé da montanha.
Os 4 graus negativos que se faziam sentir obrigaram-nos a avançar velozmente para o interior de algo que parecia uma cabana de montanha, iluminada apenas por uma fraca lampada de exterior. Com a noite a cair e rodeada por árvores esta casa parecia o cenário de um filme do Walt Disney. Ao entrar, e depois de descer 3 degraus de pedra, percebi que aquele não era um lugar qualquer. A estrutura de troncos de madeira e pedras contrastava com o outro extremo da cabana, totalmente coberto de vidros compondo uma janela gigante. Estávamos no cimo de uma falésia de onde podiamos ver o anoitecer sobre Bariloche, as suas montanhas brancas, os lagos e as casas sendo lentamente iluminadas.
O refugio é uma cabana adaptada a restaurante e em que a rainha da festa é uma lareira gigante onde arde um fogo há muito preparado. Além da luz quente que daqui emana a unica iluminação é a de dezenas (DEZENAS!!!) de velas espalhadas um pouco por todo o lado, desde as prateleiras do bar até as mesas de jantar. É uma obra de arquitectura que surpreende pelos materiais usados e, sobretudo, pelo excelente aproveitamento do espaço e das vistas.
Contam-nos então que aquele projecto foi o trabalho árduo de um artesão local que, durante anos, subiu aquele percurso com o intuito de descobrir a melhor forma de tirar proveito do local, dos materiais, da paisagem.. procurou o melhor posicionamento e planeou até ao detalhe como transformar aquele lugar num miradouro único e especial. Durante anos planeou e depois trabalhou naquele que é um dos projectos de arquitectura mais fantásticos que já vi.
No seu ultimo dia de obra, quando o espaço estava pronto e só faltava estrear, o mesmo artesão que com tanto afinco aqui trabalhou, faleceu vitima de um ataque cardiaco durante a habitual viagem de regresso à aldeia. Disseram os nossos anfitriões que a voz corrente na aldeia era a de que para ele e depois daquela obra, nenhuma outra faria sentido. Ficámos admirando ainda mais o trabalho de uma vida. O primeiro brinde, quando conseguimos quebrar o silêncio, foi em sua honra.
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