quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As tentativas

Sempre quis ser advogado. Não sei muito bem a que se devia aquela paixão pela justiça (se é que era pela justiça..) já que na familia não havia nada de semelhante (a não ser um ou outro primo... ninguém de relevante).


Racionalizando a coisa, encontro hoje mil e um motivos, todos eles válidos. Desde a admiração por quem a exercia (Dr Alcino, que mais tarde viria a ser o meu patrono, estava no topo da lista), ao fascinio pelo "teatro" do tribunal (sempre me vi de toga a debitar palestra desde o meu pulpito...) passando pelos mais que muitos elogios à minha capacidade argumentativa (ou, em portugues corrente, ao facto de eu ser um chato que não me calava enquanto não conseguia o que queria).



A familia mais próxima encarnava o papel de potenciador de auto estima dizendo que eu estava destinado a ser um advogado brilhante. Em resposta espalhava aos quatro ventos que assumiria aquele fado e todos viviamos felizes imaginando-me riquissimo com a longa toga preta em plena sessão de julgamento.


Fiz todo o Secundário com esta ideia na cabeça, escolhi as cadeiras mais apropriadas para um advogado como deve ser (até Latim tive... uma lingua morta que nenhuma utilidade me trouxe) e, quando chegou a altura das escolhas, surgiram as duvidas. Não sabia bem se o Direito era a minha vocação ou se, contrariando uma já longa carreira de prática do poder da oratória, deveria optar antes pelas belas artes.


Aos 17, pronto para escolher o futuro (acho que nessa altura, como hoje, o futuro começava na Faculdade), sentia-me igual a um noivo à porta da igreja. Os convidados lá dentro, a festa já paga e aquele receio de estar a fazer uma escolha que poderia não ser para a vida toda.


Nas vésperas de entregar os papéis para a Faculdade, informei lá em casa que Belas Artes seria a nova opção, trocando a preta toga pela bata branca e contrariando assim uma longa vida (desde os 10 anos...) de convicções. Abandonaria, de um dia para o outro, a louca e permanente ideia de seguir o caminho da Lei.


Após o choque inicial, a primeira reacção veio da Avó Felicidade. Depois de reclamar (ou, em madeirense corrente, "cramar") que eu tinha ficado louco, resmungava pelos cantos e nas minhas costas que Belas Artes nem titulo de "Doutor" dava... quanto mais dinheiro! Acrescentava que eu ia viver na rua, pintando à porta de uma igreja e sem qualquer meio de sustento. Um visão que tinha tanto de horrivel (segundo ela) quanto de romantico (achava eu).


Os meus pais adoptaram a postura cool (ou de preocupação camuflada) e só argumentavam que pintura podia ser um hobby mas talvez não uma carreira, dando exemplos de inumeros médicos do meio que tinham optado por esse esquema.


A coisa foi caminhando e eu achei que a reacção até nem tinha sido má. Sentia que havia decepção mas nada que colocasse em risco a minha profissão futura. Via-me já em Lisboa (ou noutro sitio qualquer) com 3 pincéis na mão e muita tinta pela frente... até que tudo mudou novamente.


Mudou com uma daquelas conversas pré jantar. Depois das mesmas perguntas de sempre (se eu estava mesmo decidido, se tinha ponderado os prós e contras e se achava mesmo que aquilo seria melhor que o direito), o meu Pai reafirmou o que tantas vezes tinha dito naqueles dias: que depois de tirar o curso eu podia fazer o que quisesse, incluindo ser pintor. Obviamente rebati dizendo que estava decidido e que Belas Artes era o que mais queria. Até que chegou o argumento crucial e a pergunta fatidica. Com aquele ar de quem aposta as fichas que lhe restam num ultimo jogo, só o ouvi dizer "Não percebo... para alguém que sempre teve convicções tão fortes em relação a tudo, é estranho mudar de ideias assim, de um dia para o outro... ou já tens essa ideia há muito?".


Nesse momento, do alto dos meus 17 anos, repleto de certezas e confianças, faltou-me a argumentação. Alguém (ainda para mais o meu pai) ousava acusar-me de falta de coerência. Foi o choque necessário para perceber que Belas Artes só tinha surgido à ultima hora, por receio de fracassar a entrada em Direito. Seria certamente menos humilhante que não entrar na carreira que sempre tinha querido.


Até que uma simples frase me trouxe de volta à realidade. Após alguns segundos, ouvi-o dizer "não te preocupes; tentas Direito e, se não conseguires, logo pensas no que fazes a seguir".


Algumas semanas depois, em plenas férias de Verão, fiquei a saber que tinha entrado em Direito e na minha primeira escolha: Lisboa. Passados alguns anos, posso dizer que os prognósticos iniciais da familia em me ver como advogado de toga preta estão há muito reduzidos a cinzas. Foi certamente a consequência de tantas (e tão boas) tentativas. Oxalá consiga continuar assim.


PS: Antonio, este vem a propósito do teu Post sobre o regresso às aulas e a tua matemática (ou previsibilidade) das notas... o meu prognóstico (mesmo que ainda não seja o fim do jogo) é de que te vão sair mais 5 do que aqueles que tu imaginas. Para isso só tens de aplicar a máxima do teu avô Alipio: tentas... se não conseguires, logo pensas no que fazes a seguir. Comigo tem dado MUITO resultado...

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