quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Natal do consultório


O que mais impressionava era o cheiro, misto de cera, tabaco e metal. Um perfume irreproduzível a consultório, a cura e desinfectante, misturado com o de casa vivida. Estava presente na entrada, cozinha, na sala de estar e, claro, na sala de atender. Nesta, a capela mor do meu pai, destacavam-se as pesadas cortinas de veludo ocre, sempre corridas por cima dos estores semi-fechados.
Ao entrar era difícil habituarmo-nos à penumbra, exigida pela especialidade de oftalmologia e pontualmente interrompida pelo candeeiro da secretária, uma outra luz num móvel ao canto e um aplique de parede que bravamente iluminava 3 desenhos a carvão com paisagens do Funchal. O chão em madeira castanha escura brilhava e reflectia a escassa luz graças à cera aplicada regularmente. O tom beige das paredes compunha o ambiente de respeito.


Ao fundo da sala a secretária em madeira e metal, que a nós nos parecia enorme, não se separava de outra figura de destaque: o impressionante cadeirão de braços que rodava, oscilava e deslizava sem esforço maior. Igual sorte não tinha o par de cadeirões em napa (igualmente ocres) colocados à frente da anterior, diligente e permanentemente aparafusados ao chão. A proeza foi feita pelo fiel Sr Horácio para assim impedir que fossem arrastados e se aproximassem de território sagrado: o tampo da secretária. Os poucos e arrumados objectos que ali estavam não podiam ser molestados por nenhuma mala de senhora, carrinho de criança ou saco de compras. Em cima da secretária só podiam estar os indispensáveis pisa papéis, relógio, porta canetas, todos estrategicamente colocados em posição de ataque contra qualquer desavisado que ousasse ali colocar fosse o que fosse. Lembro-me dos avisos secos de “sacos e malas no chão, que isto não é o balcão da mercearia…”. Ou dos risos contidos e camuflados do meu pai quando chegava algum doente novo e tentava a custo aproximar do Senhor Doutor a cadeira onde estava….


O tempo encarregou-se de juntar peças, móveis, quadros e objectos escolhidos a dedo por quem ali passava a maior parte do dia fechado. Uma das últimas aquisições foi uma estante em madeira com portas em vidro que rapidamente se encheu de livros sobre glaucomas e outras maleitas dos olhos. Como ainda assim sobrava espaço, acolheu-se também aqui a já extensa colecção de “bonequinhos médicos”: Dezenas de figuras nos mais diversos materiais, comprados, oferecidos ou simplesmente acolhidos naquele mini hospital feito em vidro.
Ir ao consultório era para nós um momento raro de excitação.


Lutávamos para ver quem ficava com as canetas e brochuras de propaganda médica, quem primeiro saltava para o cadeirão giratório ou quem descobria as surpresas guardadas nos armários. Isto porque a sala dos aparelhos tinha uma parede coberta de armários em madeira que escondia tudo aquilo que os doentes traziam de presente. No Natal, época própria para os reconhecimentos às habituais borlas anuais, os armários enchiam-se com todo o tipo de coisas, desde garrafas de whisky a bandejas de prata, passando pelos bordados, os bolos de mel e vinho madeira. Era uma autêntica caverna de Ali Baba onde o meu pai depositava os agradecimentos vindos das mais diversas pessoas.


Nesta visita anual aos armários do consultório, normalmente dois dias antes do Natal e sempre à noite, saíamos carregados. De coisas, mas sobretudo de emoção e orgulho. Ainda que não fossem precisas, ali estavam as provas de que o nosso pai era o melhor médico da ilha, o mais reconhecido.
Enchíamos o carro com os tesouros embrulhados em papel colorido e festejávamos dois dias antes como se o Natal fosse a dobrar. A surpresa era total já que o meu pai nunca abria aquelas prendas. Chegavam intactas a casa, de diversos tamanhos e envoltas na aura de mistério própria da época. No momento da abertura participava toda a família, sem excepção, recebendo explicações sobre quem tinha dado o que e porque. Por vezes um simples “naperon” bordado em casa era mais valorizado que uma garrafa de cristal comprada na “Maison Blanche”. Este era o verdadeiro espírito de uma noite mágica, antecipando um ainda maior Natal. O melhor Natal do Mundo.


Hoje não há ida ao consultório. Não há prendas a sobrar nem ataques às gavetas e armários. O Natal é diferente… mas é Natal. Os espaços são outros, as pessoas (algumas) são outras mas a história é a mesma. E para que ela não mude o importante é, tal como fazia o meu Pai naquelas vésperas, ir criando magia. Assim o Natal será, sempre, o mesmo Natal de sempre.
Para mim isto chega. É o princípio absoluto e imutável que faz com que este Natal seja outra vez o melhor Natal do Mundo!

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