Estamos rodeados de "Snobs".Ouvi no outro dia alguém dizer que os snobs de hoje nada têm a ver com aqueles ingleses chatos, latifundiários, personagens do inicio do século passado. Não. Os snobs de hoje, além de mais globalizados (Inglaterra seria pequena para abarcar tantos) são também muito mais democráticos. Não pertencem a uma classe social especifica.
Reconhecem-se como aqueles que pegam numa pequena parte de nós e, por essa caracteristica, nos definem como um todo. Partem do particular para o geral com uma velocidade estonteante. Isto é tanto mais verdade se estivermos a falar de profissões ou actividades. Enquanto os velhos snobs se limitavam a tirar ilações por causa da condição social, os actuais pintam o nosso retrato com só dizer o que fazemos para ganhar a vida. A resposta à pergunta "o que é que tu fazes?" pode dar origem às melhores conversas ou às piores reacções.
Senti isto na pele durante o meu curso de pintura na ESBAL, há 3 anos atrás.
Frequentei-o durante 1 ano em horário pós laboral (terças e quintas das 21H às 23H). Era o unico facilmente conciliável com o meu trabalho (na época) no Ministério. A turma tinha 30 pessoas de diferentes idades, backgrounds, feitios. Enfim, eramos todos muito diferentes. Chegávamos à aula, pintávamos e nos intervalos trocavamos palavras de circunstância (principalmente sobre os trabalhos dos outros). Cheguei ao meio do ano lectivo sabendo pouco mais sobre os meus colegas que o nome e o gosto para a pintura. Era óptimo! Podia sempre fantasiar que aqueles que pintavam melhor que eu eram pintores profissionais, consagrados e com uma carreira dedicada ao assunto - por isso estavam num estágio superior das artes.
Um belo dia, por pressão directa dos mais "curiosos", o professor anunciou que, naquela aula, cada um se devia apresentar à turma. Bastava que dissesse o que fazia, quem era, do que gostava, que signo tinha, enfim... o que quisesse.
Com algum desgosto (gostava daquela sensação de "anonimato") lá comecei a ver cada um dos meus colegas desfiando porque estava ali, que signo tinha, onde tinha nascido e um sem fim mais de informações. A curiosidade era enorme mas aquilo que mais interesse despertava, pela qual todos faziam um silêncio sepulcral, era a profissão da vitima. Invariavelmente, quando acabavam as apresentações, surgiam comentários e exclamações sobre este ponto. Ouvia-se "és jurista do Banco Santander? que bom, tenho uma duvida sobre o meu empréstimo... já falamos no intervalo" ou "Curioso seres médico dentista... ando com um problema num dente..." ou "Trabalhas na Camara de Lisboa? vou enviar-te o CV da minha afilhada... nunca se sabe!".
Havia sempre um assunto a tratar, algo de interessante a fazer, algum trabalho a discutir... Por essa altura já estava em pânico: trabalhar num Gabinete Ministerial certamente criaria reacções, quanto mais não fosse para dizer mal "daqueles cabrões do Governo..."
Quando chegou a minha vez, tentando parecer o mais natural possivel, lá fui dizendo que era do signo gémeos, que tinha nascido em Espanha, que gostava muito de pintura (!) e que a minha profissão era... funcionário publico....
Horror dos horrores! Funcionário publico não despertou qualquer emoção, qualquer exclamação ou pedido a não ser a reacção de... "passemos ao seguinte que este não tem o minimo interesse".
A partir dessa data, e para descanso meu, fui totalmente desprezado pelos meus colegas. Continuávamos a discutir pintura e os trabalhos mas sentia-me uma espécie de leproso moderno com o qual ninguém se identificava ou queria contacto. Em suma, passei a ser o "Esnobado" numa turma repleta de modernissimos snobes. E vivam os tempos modernos!
Ia a meio da história e, conhecendo-te como conheço, imaginei que este seria o final...
ResponderEliminarMuito bom!
Assim, ao menos, ficamos sempre a saber quem nos quer realmente bem!
Beijos.
Cunhada.
que delícia de "nota" aqui apresentas. abraço
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