quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A reunião


Há mais de 1 mês que um Senhor Mistério ligava diariamente para o escritório pedindo para falar com alguém sobre um projecto específico. Dizia que queria apresentar uma ideia, que já a tinha há mais de 10 anos e que por isso precisava discutir o assunto.


Depois de muita insistência (ligou todos os dias, falou com todas as secretárias e todas lhes davam as respostas mais disparatadas) lá lhe disseram que o responsável era eu. A partir daí a coisa ficou mais pessoal (dizia coisas como “então mas esse Senhor não trabalha? E ele não atende telefonemas? Está doente mas não volta?”) chegando ao ponto de, para preservar a sanidade mental de todos (já ninguém conseguia inventar desculpas), ter resolvido marcar a reunião.


Hoje foi o dia D.

O primeiro impacto foi genial. Quando uma das secretárias o foi buscar à recepção e pediu para a acompanhar o único comentário foi “sim, sim… eu acompanho-a. Quer dizer: acompanho-a desde que não seja para um sítio mau…”. Já na sala, quando lhe ofereceram café, disse preferir um whisky com gelo. E até elogiou a “decoração” de quem o acompanhou…

Claro que, com este inicio, contado às pressas antes de entrar no local da reunião, a coisa prometia.

Vinha impecavelmente vestido com umas calças azuis de linho e uma camisa igualmente azul mas mais clara, sem gravata. O pouco cabelo branco (comprido) e os óculos enormes e graduados davam-lhe um ar de reformado ainda no activo (se é que isto é possivel). Os primeiros dez minutos passaram dissertando sobre o que tinha feito na vida (desde empregado de mesa até dono de restaurante em cascais) e como tinha subido a pulso.


Pelo meio deixava dicas de como controlava a situação. “Conhece bem Lisboa?” perguntou-me a dada altura. Respondi (a medo) que sim, que morava cá desde os 18 (achei que não valia a pena confundi-lo com períodos de ausência da capital) e que conhecia bem Lisboa, ao que ele, depois de responder “então não conhece Lisboa…”, aproveitou para começar a falar de como, no antigamente, funcionavam os restaurantes da baixa, as esplanadas da Avenida da Liberdade e, a sua jóia da coroa, as diversões do parque Mayer. Segundo ele "aquilo era uma maravilha".


Percebi logo que era este o objecto da reunião: tinha de lhe deixar fazer um parque Mayer dentro do nosso projecto. Seria algo “cheio de restaurantes… com um teatro onde se ensaiariam revistas - que os clientes querem é ver as coristas… e com ourivesarias e lojas de lingerie… e uma pizzaria com objectos pendurados no tecto – semelhante a uma que viu nos EUA com motas, carros, ursos e palhaços – que circulariam por toda a área do restaurante graças a um sistema de calhas igual ao que existe para as cortinas nas enfermarias de Santa Maria (e que ele descobriu por acaso depois de um internamento de 3 dias devido a uma série de análises)”.


As ideias continuaram a surgir a uma velocidade vertiginosa e desarmante. Tive de lhe dizer que talvez não houvesse espaço para tudo aquilo porque a área comercial (o que sobraria do Hotel) era pequena e além disso o Hotel teria restaurante. Custou-me ver como, em fracções de segundo, caíram por terra todas aquelas ideias, todas as imagens das coristas a passear nas ruas, dos ursos pendurados no tecto e dos ranchos a ensaiar na praça principal. O meu projecto era demasiado pequeno e pouco ambicioso para todos aqueles sonhos.


Mas 85 anos e uma vida inteira dedicada a lutar certamente não o fariam desistir de conseguir algo. E nessa ocasião, levantando os olhos como se tivesse descoberto a chave do segredo, só o ouvi dizer “espere aí… disse que o Hotel tinha restaurante? Então está decidido: contrata-me como seu director de alimentos e bebidas…”.


Fiquei na duvida se não o deveria ter feito... limitei-me a sorrir (argumentando, cobardemente, que as decisões de contratação não passavam por mim) e prometi que em Janeiro, quando começassemos a pensar naquela área comercial, lhe telefonaria para discutirmos novamente o assunto. Acho que nessa reunião vou aprender ainda mais.

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