segunda-feira, 13 de julho de 2009

Anuncio de leilão





Ontem descobri que havia leilão, nessa mesma noite, numa qualquer sala de Lisboa. No meio do Leilão, entre pratos Companhia das Indias, Canapés e todo o tipo de anéis, estavam alguns objectos do meu imaginário de criança: duas aguarelas do Max Romer! Aquelas aguarelas fantásticas, retratos de uma Madeira que teimou em desaparecer, cheias de cor, de buganvillias, de glicinias e céu azul. Eram verdadeiras obras de arte à minha escala: enchiam de cor as paredes brancas das casas onde ia e traziam para dentro muito do que se via lá fora. A mistura de cores era fora de série, a luz unica e os enquadramentos insuperaveis. Lembro-me da gradavel surpresa que era encontrar e reencontrar obras do Max Romer em tudo quanto era casa de amigo e até de familia. A Madrinha do Ali tinha uma na sala de televisão e a Maria do Céu exibia orgulhosa duas aguarelas fantásticas mesmo no hall de entrada de casa (uma delas com uma paisagem nocturna), herança da Tia Aurora de Santa Cruz (ou seria outra tia?). Mas quem ganhava a taça era o Desidério: fruto de uma qualquer relação da avó com o Max Romer (julgo que trabalhava lá em casa...), o Desidério foi a pessoa que melhor conheci e que mais Max Romer tinha. Deliciava-me ver aqueles cromos ilustrados da Madeira (a Eva guardava muitos na gaveta, sem emoldurar) e lembro-me de olhar pela janela e pensar que aquilo era uma réplica fiel da Madeira que eu via: Colorida, leve e feliz.


Fui sempre tropeçando nos quadros do Max Romer e é curioso nunca ter sequer conhecido alguém que o conhecesse. Via-o como um inglês de idade avançada, chegando no inicio do século e ao nascer do sol ao Funchal, trazido por um qualquer cruzeiro, daqueles que faziam a ligação com a Velha Albion. Imaginava-o a desembarcar na Pontinha e a pensar que aquele passaria a ser o cenário das suas próximas criações. Depois de um breve passeio pelo centro (obviamente num carro de bois...), consciente que nada o prendia a Londres (quase não tinha parentes, a venda do negócio de familia rendia-lhe o suficiente para viver num local daqueles e sempre manteria o contacto com os amigos que o viriam visitar) decidiu viver naquela baia. Arrendou uma casa de dois pisos, algures em São Gonçalo, e passou a desfrutar todos os dias do seu terraço debruçado sobre o mar. E nesse mesmo terraço certamente cresceriam as mesmas buganvilias e glicinias que ele tanto queria retratar. Assim, imaginava eu, teria vivido o melhor pintor da minha ilha.


Descubro agora que, de facto, Max Romer chegou à Madeira em 1922 e ali viveu até morrer em 1960. O que sempre foi Londres no meu pensamento resultou ser Hamburgo e o velho inglês que imaginava ter morrido sozinho, longe da sua familia inglesa, num fim de tarde e sentado na sua varanda em São Gonçalo, afinal viveu rodeado da familia e amigos na Rua Major Reis Gomes... Freguesia da Sé!

De qualquer forma, os acidentes de percurso que a minha imaginação deu à vida de Max Romer pouco interessam para o caso. O mais importante é que foi graças ao Max Romer e aos seus quadros que, naquele tempo, decidi que tinha de ser pintor. Também eu queria retratar as mesmas paisagens, casas e ruas, se possivel daquela mesma forma. Passar para o papel o céu azul, as nuvens brancas, as buganvilias e glicinias que via em cada esquina. Fixar uma Madeira que era muito mais que o betão que hoje conhecemos.


Fiquei feliz por ter reencontrado o Max Romer, passados tantos anos, num leilão da capital... Acho que ainda vou a tempo.




«(...)Na Madeira, em paisagem, não há o feio. Há o bonito, há o belo e o grandioso. A paisagem é sempre diferente em cada trecho. Não há a monotonia. Pela costa recortada e acidentada, toda ela altos promontórios e pequenas praias, pelas vertentes, cheias de cultura, em que o verde varia até o verosímil, pelas montanhas, pelas povoações tão fortemente cheias de pitoresco, nós os artistas, encontramos em excesso os quadros que desejamos fixar. Em um pequeno passeio, surgem ante os nossos olhos, motivos para numerosas telas (...)»
Entrevista a Max Römer, Diário de Notícias, Funchal, 21 de Janeiro de 1932

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