Pela porta principal, fielmente guardada por um empregado de libré azul escuro debruada a ouro e encimada por um chapéu estilo militar, chegavam os mais diversos personagens. Na memória de quantos assistiam a este rodopio, ficavam imagens como a daquele novo Embaixador de um país longinquo, vestido ainda de gala depois da tomada de posse e seguido por um séquito de personagens e autoridades locais. Bem como o rebuliço por causa da chegada de uma reconhecida actriz, loura fantasia, de vestido vermelho e enorme chapéu de abas, perseguida por um bando de fotógrafos insistentes. E que dizer do empresário de sucesso, com as suas polainas reluzentes e o seu fato casaco apertado (a barriga não ajudava), gravata de seda decorada com um alfinete cravejado de brilhantes. Claro que havia também a familia com o pai carregado de malas e a mãe a puxar pelos dois filhos mais novos, o casal de recem casados em lua de mel, o grupo de freiras apressadas e à procura de repouso antes de começar uma nova peregrinação.
Dia tras dia repetia-se o ritual de partida e chegada. Havia sempre novidades, cada uma mais marcante e sempre mais rocambulesca. A hora também influia no agito das chegadas. Era ao entardecer, quando o sol começava a por-se no horizonte, que o afluxo aumentava e a nossa excitação também. Imaginávamos como se acendiam as luzes, o brilho dos lustres nos salões, as mesas com toalhas brancas impecaveis e os chás com bolos tomados por todas aquelas personagens. O desfazer das malas nos quartos, a organização dos eventos familiares e o protocolo das festas em mais de uma ocasião. As saidas apressadas para ir buscar qualquer coisa em falta e a expectativa de quem ficava à espera daquele regresso. Viamos tudo com a maior emoção e era sempre a minha mãe quem primeiro nos chamava a atenção para os mais recentes turistas.
Assim era até o momento em que, pouco a pouco, a lua começava a ocupar o lugar do sol e a noite derramava o seu tinteiro. Nessa altura e sobre aquele hotel, caia o silêncio. Era como se, de repente, tudo parasse e não houvesse qualquer vida no seu interior. Era a hora do descanso, para os hóspedes e para nós. A imaginação parava e aquele hotel de luxo, que momentos antes tinha sido a casa de tantas estrelas, transformava-se no que realmente era: uma enorme e secular árvore mesmo à frente da nossa varanda. E os hóspedes que tão atarefados saiam e entravam naquele destino mais não eram que tentilhões, corre caminhos, melros e papinhos - simples mas agitados pássaros à procura de um lugar para passar a noite. Os actores perfeitos para uma história reeinventada todos os dias à mesma hora e sob o calor húmido da Primavera no Funchal.
Era assim a vida no nosso "hotel dos pássaros", o filme que nos ocupava dia após dia e sempre ao fim da tarde, no ultimo andar de um prédio à Rua da Carreira.
Para mim, a aparentemente enorme varanda lá de casa foi sem duvida a melhor sala de cinema em que alguma vez estive.
LINDO!
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